Hoje acordei e fui à praia. O dia estava lindo e o sol, que andava meio escondido nas últimas manhãs chuvosas, reapareceu majestoso. A prática de yoga foi maravilhosa e profunda. Ao chegar em casa fui para o chuveiro e queria sentir a água escorrer na minha cabeça (sou muito mental e acumulo muita energia nessa região: uma boa ducha gelada na cuca ajuda a desopilar um pouquinho). Porém, a força da água não percolava até as raízes, já que meus soberbos cabelos não permitiam. Lisos, compridos, sedosos e dourados, esses belos fios também sustentavam lembranças desagradáveis, apegos e vaidades. Naquele instante eles pareciam pesar toneladas e, entoando o “Recado da Mãe Divina”, empunhei a minha tesoura e cumpri meu “sahasharakiri” (neologismo meu: um harakiri para libertar meu hara (chakra solar, o manipura, extremamente ligado a idéia de EU) e o meu sahashara (chakra coronário, da transcendência, da libertação). O retoque final foi feito no salão de beleza, pelas mãos de uma cabeleireira, inconformada com o fato, que já estava consumado!
“Não há desculpas para se escorar já foi dito a hora é essa, o tempo é de se integrar, abraçando o que ainda resta... Estou morrendo para o passado nem anseio pelo futuro, minha coroa tem brilho dourado, provo o néctar do amor maduro” Fragmento do “Recado da Mãe Divina”, recebido por Chandra Lacombe
Este ano eu completo 30 invernos (não são primaveras, pois nasci em julho). Os que já passaram por essa fase sabem que ela vem recheada de mudanças, tanto físicas (já me chamam de Tia ou Senhora na rua!!!), como comportamentais, e com isso vêm os questionamentos.
Após a miscelânea de emoções vividas nos últimos anos, resolvi tirar um tempo para mim. Quero vivenciar situações imprevistas e redescobrir a Flávia, que por vezes vinha se escorando em personagens circunstanciais.
Obtive a aprovação do meu pedido de licença sem vencimentos do trabalho, por um período de um ano. Só faltava isso para começar o meu planejamento de transformar minhas economias em passagens, albergues, museus, paisagens, espiritualidade, comidas, encontros e desencontros.
Dois mil e oito para mim vai ser o ano da cigarra! – Isso não é horóscopo Chinês, Maia ou Checheno; é o resgate da Fábula de La Fontaine (mais conhecida como Fábula da cigarra e da formiga), mas com uma inversão de sua moral: sim, paremos para cantar e apreciar a primavera, e desfrutemos o ócio!!!!!
Meu caminho
29 de agosto de 2009
Desapegos
11 de agosto de 2009
Vriksha
Hoje, depois do habitual yoga matinal, passei um tempo pensando sobre a postura da árvore (Vrikshasana). Ela sempre mexeu muito comigo, pois sinto que me traz equilíbrio e centramento. Agora, que estou no mergulho de percepções mais sutís, me sinto ainda mais apaixonada por ela. Ao praticá-la, trabalhamos quase todos os centros energéticos, inclusive a nossa base. Contudo, a postura é transcendente e nos conecta com o alto, energizando principalmente, o Ajana chakra(sexto centro). Quando estou nela, após umas poucas respirações profundas já percebo esse poder sobre os meus corpos físico, emocional, mental e energético.
Mas, particularmente, o que hoje me sensibilizou foi a valiosa mensagem que percebi ao fazer uma variação desse asana: quando já estamos confortável e firme na postura, com as mãos elevadas em prece para o céu, descemos o tronco até as mãos tocarem o solo (mantendo a mesma base). Esse movimento é uma representação da figueira Banyan, considerada sagrada na Índia. Ela é uma frondosa árvore que com o tempo vai lançando dos seus galhos, raízes que buscam o solo. Quanto mais antigo o indivíduo, mais "troncos-raizes" ele terá, até chegar um ponto que fica difícil saber qual dessas bases é o tronco principal.
No hata yoga, estar em asana é estar firme e confortável na postura. Fiquei pensando que o avanço da postura da árvore pode ser considerado uma grande lição, pois ao descer devemos manter esses mesmos atributos: firmeza, conforto, equilíbrio, confiança e beleza. Esse movimento me fez refletir sobre a nossa postura em relação a impermanência das coisas, a dualidade da vida nessa nossa realidade mundana e a existência de ciclos como a roda de Samsara: uma hora estamos direcionados para o céu, outra hora para o chão. E quando o sentido é para baixo, podemos inicialmente achar essa fase ruim por estarmos contrários ao céu, por outro lado, podemos também ficar felizes pela oportunidade que nos leva a aproximarmos mais da terra, da nossa base.
No Banyan, com o processo de enraizamento, a árvore adquire mais sustentação e é fortalecida, pois com mais troncos-raízes ela será mais firme, melhor nutrida, diversificada e resistente. E conosco, não é o mesmo? Se encararmos todo processo de crise, como uma oportunidade para um crescimento, evolução e fortalecimento, poderemos também nos beneficiar desse, inevitável, movimento de subidas e descidas que é a vida e encarar todo esse jogo com mais leveza.
A natureza é mesmo uma poesia, o Guru em sua forma imanifesta! E o yoga é mesmo a sabedoria da união, a síntese! Fantástico!
Sugestão: pratiquem-na sempre e, ao fazer, tente lembrar dessa mensagem que o universo nos traz.
Namastê

22 de julho de 2009
Dai-me, Prem
um lampejo único e mudo que,
como uma onda que varre castelos de areia,
arrebatou essa gota que teimosamente resistia em correr para o mar.
Hoje, essa gota, ora fluida, ora frígida,
ora lente que foca, ora prisma que separa,
tem na lembrança de seu toque a sua inspiração mais pura.
23 de março de 2009
Meu retorno
Queridos,
dia 18 de março terminou minha peregrinação por esse mundão. Estou na casa do meu pai, em São Paulo, sentindo a intensidade desse retorno. É grande a felicidade de estar em terrinhas tupiniquins, mesmo com os desafios que essa volta me traz, pois sinto que alguns velhos hábitos, rotinas e conceitos parecem não mais fazer sentido para mim e há uma negação em regressar a eles. Apesar de sentir momentos de inquietações, tenho trabalhado relativamente bem a minha ansiedade, buscando me manter tranqüila, honesta e aberta ao que vem de novo.
Definitivamente me sinto muito diferente da Flávia que partiu em 2008, acredito que mais amadurecida, e que essa transformação ainda esta só no começo. Passei por uma viagem na qual pude desfrutar e aprender muito com o mundo exterior (paisagens, pessoas, culturas, etc.), mas também ter a oportunidade de iniciar o caminho do mundo interior. E foi ao longo da jornada que a maturidade foi sendo firmada e muitos conceitos sendo gradativamente ressignificados.
Antes de partir, estava imersa em sentimentos de frustração e projetei a minha felicidade na realização dessa viagem. Contudo, no momento da tão sonhada experiência, constantemente ansiava pelo momento futuro, o próximo destino, onde certamente estaria o melhor momento de êxtase. Também, ao sair do Brasil, pensava que a minha independência e liberdade eram simbolizadas pelo ato de colocar de uma mochila nas costas e sair para uma viagem solo ao desconhecido, às custas de recursos financeiros próprios. De certa forma, reconheço que foi uma conquista e que houve certo desprendimento e coragem na ação. Porém, admito que muitas vezes não soube estar realmente só e que, repetidamente, busquei preenchimento através do outro, debruçando minhas expectativas nas pessoas que encontrava no caminho ou que faziam contatos virtuais. Ah, foram tantas visitas a internet para fugir daquele conhecido vazio!
Tive que escalar o vulcão Etna, atravessar o deserto da Capadocia, trilhar os Himalaias e cruzar muitas fronteiras para perceber que, independente dessas serem grandes experiências, a maior delas tem sido explorar aquele espaço que estava ali, bem pertinho e sempre acessível, que é o mistério de mim mesma! Isso eu fui descobrindo ao longo da jornada, mas a percepção culminou na Índia, e devo muito ao Prem Baba, as pessoas do seu grupo e minha irmã Cláudia (La foi onde completei 9 meses de viagem, o que para mim simbolizou meu renascimento!). Mas também valorizo muito a viagem exterior pois foi ela que me expôs ao desconhecido e me possibilitou experimentar, com mais confiança e espontaneidade, novos espaços sociais e facetas do meu ser que, talvez por condicionamento e repressão, não teria feito nos conhecidos círculos no Brasil.
Hoje compreendo que a felicidade deve ser conquistada dentro, para assim ser emanada para fora. É uma valiosa mudança conceitual, pois está no sentido inverso do que eu antes acreditava. E ela só é conquistada quando podemos expressar o nosso EU interior mais genuíno e espontâneo, despido dos inúmeros filtros emprestados e dos pára-choques implantados. Cada pouquinho que me movo em direção a esse EU verdadeiro, experiencio mais paz, completude e amor. E quando, por graça, consigo acessar um lampejo desse puro amor, sinto que ele vem para ser compartilhado e entregue de forma incondicional. Tenho focado muito para sair da contra-mão, na qual sou movida pela infinita carência em receber. Descobri que, isso sim, é a verdadeira liberdade e independência.
E quando estamos nessa sintonia amorosa, podendo expressar nossa verdadeira essência, naturalmente sentimos uma alegria muito grande e um amor pela vida. E como a vida só existe no momento presente, o resto é ilusão, tenho procurado desfrutá-la até o osso, mesmo nas pequenas coisas. Ah, e como tem sido bom comer uma maçã, dançar uma música, admirar uma criança, acariciar uma pessoa, escutar um passarinho... !
Estou decidida a sair dos meus automatismos e do velho condicionamento de estar sempre na incessante busca de algo a ser conquistado no futuro ou atada aos de alegria e dor ocorridos no passado. Acho que, talvez, devido a esse intento interno é que tenho criado um pouco de resistência em atualizar os relatos de viagem no meu BLOG. Sempre fui tão apegada ao passado, que tenho que radicalizar um pouco para tentar me livrar desse padrão.
Tenho a noção que há muito para ser amadurecido e que ainda estou cheia de defeitos e padrões negativos. Há muito que se trabalhar para alcançar a coerência entre o discurso e a prática. Também não estou imune a quedas e regressões, mas ao menos tenho a certeza que conquistei uma parte desperta em mim que estará constantemente a me instigar a trilhar esse caminho do coração, seja em João Pessoa, São Paulo, Lisboa, Moscou, Rishkesh, Bankok, onde tiver que ser, e para então continuar cantando como cigarra, nos verões, primaveras, outonos ou nos invernos da vida!
Namastê!
Beijão,
Flávia (A Cigarra)
18 de fevereiro de 2009
News
Galera!
Ainda estou na India, em Rishkesh, finalizando a temporada dos trabalhos com o Prem Baba. Dia 23 de fevereiro sigo para Tailandia, um dia antes do meu visto indiano expirar. Realmente nao imaginava que ficaria aqui por tanto tempo! Mas isso que e gostoso em um viagem assim, estar livre para ir quando e onde quiser (claro, pagando uns adicionais de taxas e multas por mudar os bilhetes aereos ;) ).
Se eu tiver tempo escreverei na Tailandia, se nao, fica para o Brasil. Chego nas terrinhas tupiniquins dia 19 de marco. As saudades sao grandes!
beijao a todos os amigos e familiares,
Fla
13 de janeiro de 2009
Em construção...
Queridos,
Sei que estou sumida do blog, mas é que tenho passado por uma experiência muito intensa aqui em Rishikesh, onde não há muito espaço para esse mundo virtual. Estamos em plena atividade em um Asham, com a presença de um guru espiritual maravilhoso. Iríamos ficar apenas uma semana por aqui e resolvemos permanecer, pelo menos, um mês. Tem sido uma profunda viagem interior, de autoconhecimento. Sri Prem Baba é um ser de luz que está ensinando muito a nós, o que tem acarretado profundas mudanças internas. Entre elas, minha abertura para a espiritualidade, um lado sempre reprimido por minha mente racional e meu ceticismo. Hoje consigo ver que ciência e espiritualidade não são mutuamente excludentes. Aqui encontrei o amor em muitas formas de expressão. Estou feliz e, predominantemente, em paz, pois estar sendo constantemente desafiada a ressignificar as coisas mundanas e a mim mesma ainda gera alguma intranquilidade.
Volto a escrever quando der.
beijos a todos,
Namastê!
27 de dezembro de 2008
Festas!
Queridos amigos,
Vim aqui para desejar um Feliz Natal e uma ótima entrada de ano para vocês!
Ainda na Índia, meu Natal quase que passa desapercebido. Aqui não tem músicas de corais e imagens de Papai Noel, presépios ou luzinhas natalinas nas ruas. Apesar de existir uma porcentagem significativa de cristãos, o entorno da cultura hinduísta é tão predominante que quase que esquecemos que estávamos perto das festividades.
Porém, no fim, a minha experiência natalina não foi rodeada de um clima hinduísta, mas sim budista (apesar de Buddha também ser aceito no hinduísmo, como uma reencarnação de Vishnu). Estávamos em Bodhgaia, cidade no nordeste da Índia, onde Buddha atingiu sua iluminação. Local com uma energia muito forte, cheia de peregrinos vindo de diferentes países do mundo, principalmente da região do Tibet.
Lá, juntas com outros amigos, um alemão e outro escocês, saímos para um jantar de celebração e ate fizemos um corinho de músicas natalinas (vejam a última foto). Também fizemos nossas reverências ao menino Jesus (outro iluminado que passou por essa terra) e nos deliciamos com nosso prato vegetariano, especialidade da comida Tibetana! Muito bom!
Mesmo feliz e completa, dormi com muitas saudades dos amigos e, principalmente, da família: das músicas de Natal da Beti; do meu pai ansioso para abrir presentes parecendo uma criança; do almoço em Sorocaba; dos panetones da vó Macaca e assados do vô Bode; corujice da mamãe, das aparicões inesperadas do Leonel; das bebedeiras com primos, tios, irmanitas e cunhados... Tão gostoso! E só estar bem distante para valorizar 1000 vezes mais tudo isso!
Espero que as festas de vocês tenham sido também cheias de luz e alegria,
aproveitem esse período gostoso com as pessoas que amam que eu faço isso aqui com a Cacá!
muitos beijos,
Flávia
12 de dezembro de 2008
Viena, Bratislava, Budapeste
Ontem tive a oportunidade de acesso à internet e visitei meu, abandonado, blog. Vi que os relatos de Berlim estavam como o meu último post, experiências ocorridas no mês de setembro, mas que me parecem tão longínquas... Ainda mais porque agora estou na Ásia, vivenciando um ritmo e emoções completamente distintas daquele período na Europa. Tive, então, a noção de que seria muito difícil a atualização do blog, com relatos detalhados sobre as diversas localidades visitadas nesse ínterim. Por isso resolvi declarar minha incapacidade na manutenção desse espaço. Por alguns minutos pensei em aproveitar para abandoná-lo de vez, por não ter tido muito tempo ou inspiração para escrever. Mas por fim, resolvi tentar mais uma vez e optar por fazer apenas resumos sobre essas localidades anteriores. Então vão alguns...
Áustria: Viena
Da Alemanha segui para Viena, capital da Áustria. Lá fiquei apenas 3 dias, mas levei a impressão de uma cidade muito bonita, organizada, limpa, elitizada, porém cara e um pouco ¨careta¨ (talvez tenha visto dessa maneira porque acabara de chegar da alternativa e punk Berlim).
Viena é banhada pelo Rio Danúbio, mas o coração e centro histórico da cidade está dentro de um perímetro circular chamado Ringstraße, onde há uma grande quantidade de jardins, monumentos, palácios e outras construções grandiosas. Nesse centro também há uma área conhecida como zona internacional, onde estão as sedes e escritórios de organizações internacionais de nações unidas e grandes corporações. Tanto hoje, como no passado - quando era capital do antigo império Austríaco e Austro-húngaro -, Viena tem sido uma importante cidade no mapa político europeu.
Entretanto, a cidade é mesmo marcada por sua inclinação pelas artes, devido à presença de uma grande quantidade de museus (dizem que há mais de 100 museus de arte, além dos museus de história e de ciência!), conservatórios de música e teatros de ópera e música erudita. Infelizmente não tive tempo e dinheiro para ver um concerto de música clássica. Mas ao menos visitei alguns dos museus, como o de História Natural (MHN) e os museus de arte Albertina e Belvedere. Amei ter visto a coleção ornitológica do MHN, mas também fiquei sem fôlego ao contemplar as douradas obras ¨O beijo¨ e ¨Judith¨ de Gustav Klimt, o mais famoso pintor austríaco. Emocionante!
Um dos pontos fortes da minha visita a Viena foi as amizades que fiz na cidade. Por meio de um couchsurfer conheci um casal muito legal, a austríaca Julia e o italiano Stephano, que me acolheram em sua casa. Eles ainda promoveram um jantar para me apresentar a uns amigos e aos dotes culinários do meu anfitrião, que, honrando suas raízes, fez uma massa caseira deliciosa. De lá ainda saímos para a noite vienense. Nada muito empolgante, exceto as ótimas companhias.
Eslováquia: Bratislava
De Viena, peguei um trem à tarde para a vizinha Bratislava, capital da Eslováquia. Ela está a apenas 60 km de Viena e vale a visita. É uma cidade de aproximadamente 427.000 habitantes e tem um centro histórico muito gracioso e preservado, que, para uma idéia geral, pode até ser visitado em um dia. Por estar com o calendário apertado, reservei apenas uma noite e um dia para lá. Contudo, não tive muita sorte, pois caiu uma forte chuva no dia da minha visita. De qualquer maneira, em um momento de estiagem peguei o guarda-chuva e corri para o centro com outras duas brasileiras, que estavam no mesmo albergue, para darmos um giro pelos principais pontos turísticos. Jatos de água iam e vinham e depois de algumas horas caminhando, nossos molhados e frios pés nos conduziram a um aconchegante café. Lá passamos o resto da tarde papeando, escutando - acreditem! - bossa nova e, sem culpa, comendo bolos e tomando cremosos chocolates-quentes. De lá passei no albergue para buscar minha mochila e seguir para a estação ferroviária, onde pegaria um trem para Budapeste.
Hungria: Budapeste
Cheguei a Budapeste à noite e fui direto ao albergue. Ao chegar fui acomodada em um mezanino, onde já havia outro mochileiro. Nos apresentamos em inglês, mas em menos de 5 minutos já nos reconhecemos como brasileiros. Ângelo era um carioca ¨maneríííssimo¨ e, juntamente com Liza (australiana) e Fernando (mexicano), foi minha companhia enquanto estive na cidade.
Meu albergue ficava na área da antiga Peste, à leste do Rio Danúbio. Este rio outrora era a fronteira de três cidades que foram unificadas em 1873 para formar Budapeste: Peste, em uma margem, e Buda e Óbuda (Buda antiga), na outra. Apesar das chuvas intermitentes, circulei bastante na cidade e tive a oportunidade de visitar suas distintas regiões, sempre com meu guarda-chuva a tira-colo.
A cidade é muito linda e os dois lados me pareceram bastante interessantes. Buda fica em uma região montanhosa e florestada e abriga grande parte dos sítios históricos e de interesse turístico, como o distrito do Castelo, museus, antigas igrejas, o Fisherman, casas de banhos termais e outros prédios. Peste é uma área mais plana, que concentra as estruturas administrativas, políticas, comerciais, econômicas e culturais da cidade. Lá também há vários locais de interesse para visitação, porém mais espacialmente dispersos, como o prédio do Parlamento, a grande Sinagoga, a Praça dos Heróis, o Octogonal, vários museus, casas de banhos termais, mercados e outros. Há também a famosa Avenida Andrassy, onde se encontram belíssimos prédios antigos, famosos e anônimos, e de diferentes estilos arquitetônicos. Essa avenida, como também o distrito do Castelo, são sítios tombados pela UNESCO como Patrimônio Histórico Mundial da Humanidade.
Entre os locais visitados, destaco a visita que fiz ao Museu de Finas Artes, onde havia uma exposição fotográfica chamada body and soul, com obras de fotógrafos desde o início do século XX até de contemporâneos. Havia fotos artísticas em estúdio, mas também jornalísticas, com destaque àquelas fantásticas feitas por Robert Cappa, Henry Cartier Bresson e pelo brasileiríssimo Sebastião Salgado. Percebi como cada vez mais me atraio pela fotografia e gosto de observar exposições, tanto para apreciar o lirismo e a dramaticidade das cenas, como tentar analisar as técnicas utilizadas pelos autores.
Outra experiência bem legal foi minha visita a uma casa de banho de águas termais. Fui à noite ao Banho Széchenyi, que é um dos mais antigos de Budapeste e o maior da Europa. Lá há piscinas em ambientes interiores e exteriores, com diferentes temperaturas e distintas concentrações de elementos químicos nas águas medicinais. Passei várias horas, pulando de piscina em piscina, até os dedos ficarem extremamente enrugados. Foi um passeio muito prazeroso e relaxante, adorei!
Por fim, chamo a atenção para uma saída noturna num clube de jazz em Peste, onde tive o prazer de ver uma empolgante jam session, com excelentes músicos e ainda de graça! Saí com uma impressão que em Budapeste há ótimo espaço para a boa música, pela considerável quantidade de concertos de jazz que aconteciam na cidade e de canções brasileiras de samba e bossa-nova que escutei em bares e rádios locais!
Nos últimos dias em Budapeste comecei a pensar qual seria meu próximo destino. Depois de lá não tinha nada planejado, apenas sabia que teria que estar dia 02 de outubro em Milão, para encontrar meu pai e a Bety, que estariam de férias pela Europa. Depois de tanto estudar o mapa europeu e o calendário, optei pela Croácia. Já tinha escutado comentários positivos sobre a beleza e os custos do país, e sua localização conciliava com meus planos de entrar na Itália pela Eslovênia. Descobri que o Fernando também tinha planos de seguir para Zagreb, então decidimos ir juntos.
30 de novembro de 2008
Notícias
A Cláudia e eu chegamos em Auroville. Ficamos um dia presas em Chennai (ex Madras), na área do aeroporto, pois passou um ciclone por aqui dias atrás e não parava de chover. Agora tudo em paz, um pouco de nuvens, mas normal. Aqui é super quente e úmido e me lembra os anos que passei em Rondônia. Até que não é tao mal, pois minha pele estava parecendo escamas de cobra antes de vir para cá.
Estaremos nessa comunidade alternativa por mais ou menos uma semana e não sabemos quando poderemos ter novo acesso à net. Enquanto isso, fiquem tranquilos e saibam que estamos bem.
Beijos a todos,
Namastê!
27 de novembro de 2008
Notícias
Queridos amigos e familiares,
Acho que muitos de vocês ouviram sobre os tristes atentados em Mumbai. E por saberem que estamos na Índia, alguns mandaram emails para mim ou para a família pedindo notícias. Então, escrevemos esse post para tranquilizá-los, pois eu e a Claudia estamos bem. Hoje passamos o dia em Delhi e amanhã viajaremos para o sul do pais, cerca de Chenai, para visitar uma comunidade paz e amor.
Imagino que deve ser preocupante de longe. Tambem é de perto e por isso estamos sendo prudentes o quanto podemos e nos afastando das zonas mais turisticas.
Vamos dando noticas quando possível. Mandem vibrações positivas, é o que precisamos.
Amor,
Namastê,
Caca e Fafa
24 de novembro de 2008
Notícias
Sei, sei que estou sumida! Mas estava em caminhada pelas montanhas dos Himalaias (Langtang trek) e não havia acesso à internet. Agora estou de volta a Kathmandu, mas a net é bem lenta.
Amanhã tentarei colocar o blog mais atualizado. Isso se a energia da cidade não cair e se encontrar uma conexão razoável.
Mas, para resumir: estou amando esse país! Nepal é showwwwww.
Tirei umas fotinhos legais, mas preciso achar uma conexão boa para o upload.
um beijo a todos,
Namastê,
Fla
7 de novembro de 2008
Berlim
Era uma linda manhã ensolarada e meu humor não poderia estar melhor. Eu era só alegria com a expectativa de voltar a vestir minha mochila e sair à exploração de novas localidades. De Cerny Dull pegaria um ônibus a Praga e de lá um trem para Berlim. Esses trajetos não eram diretos e haveriam paradas em cada cidadezinha ao longo do caminho. Seria praticamente um dia inteiro de viagem, mas não me importava, pois mesmo tendo um grande desejo de chegar, também me encantava a idéia de novamente observar o desfilar de paisagens a partir de uma janela.
O trem para Berlim estava lotado e a minha cabine tinha todos os 6 lugares ocupados. Esse era um pequeno compartimento que, com as grandes malas encaixadas entre nós, tendia a produzir efeitos claustrofóbicos. Minha sorte era estar ao lado da janela, pois me transpus ao ambiente externo e mantive a sensação de bem-estar que me acompanhava desde meu despertar. Na estação de fronteira entre a República Checa e Alemanha, inesperadamente, todos os companheiros de cubículo se levantaram e passei a ter um camarote só para mim. Estava anoitecendo, a paisagem natural que cruzávamos era linda e entramos no perímetro urbano de Dresden, já na Alemanha. Do trem podia-se avistar as luzes da cidade e alguns dos seus edifícios, que me deixaram muito emocionada! Eu parecia tão entusiasmada como no primeiro dia de viagem embarcando para Lisboa, contudo agora mais leve e confiante.
A melhor maneira que encontrei para aliviar um princípio de inquietude foi resgatar meus pequenos ganzás no fundo da mochila, que acompanhariam a vazão da emoção por minha voz. O resto da viagem se completou em tempo recorde, embalado pelo repertório de Clara Nunes, Chico Buarque, Teresa Cristina, Ataulfo Alves, Cartola e outros sambistas. A percussão estava meio descoordenada, mas o canto estava bonito... e alto! Talvez a empolgação tenha sido demasiada, pois vez ou outra pulavam miradas curiosas para dentro da minha cabine. Porém, elas não me incomodaram, pois me encontrava completamente feliz e despudorada!
A chegada em Berlim foi um jato de realidade, literalmente, pois caía uma chuva torrencial. Além disso, já era de noite, estava em uma metrópole e tinha que ficar mais atenta para efetuar uma segura e econômica chegada ao albergue. Esperei alguns minutos até a chuva se acalmar, consegui um mapa da cidade e a indicação que poderia ir a pé ao meu albergue, que se encontrava a poucas quadras da estação. Munida de meu guarda-chuva saí pelas ruas escuras, mas movimentadas, daquele bairro de Berlim.
No albergue tive uma agradável surpresa. Sua estrutura era muito boa e ao mesmo tempo ele era muito econômico. O valor era diferente do que estava apontado no guia, pois os preços eram cotados diariamente de acordo com a lotação dos quartos. Duas noites me custaram 12,00 e 9,00 euros, valores extremante baratos, se comparados com o resto da Europa ocidental! Nos dias seguintes constatei que não só a acomodação era econômica, mas também a alimentação e opções de passeios, um dos muitos motivos que me fizeram sair apaixonada por essa cidade!
Não sabia, mas Berlim é o terceiro destino turístico mais visitado da Europa e me admirei ao ver a quantidade de atrativos que esta metrópole oferece aos seus visitantes. Talvez por saber que a cidade havia sido intensamente bombardeada durante a segunda guerra mundial e por estar condicionada a visitar localidades européias com atrativos seculares, previamente menosprezei seu potencial. Uma bobagem! O diferencial de Berlim está na sua diversidade e na estimulante coexistência do histórico e do moderno, da cultura do capital e dos remanescentes socialistas, da disciplina e do anarquismo, e outras contradições.
Berlim é considerada o maior centro cultural, tecnológico e científico da Europa. Essa contemporaneidade está também materializada na arquitetura da cidade, onde predominam edifícios modernos, funcionais, sendo ao mesmo tempo criativos e arrojados. Entretanto, esses estão entre alguns remanescentes representantes de escolas arquitetônicas mais antigas e tradicionais, além dos prédios no estilo stalinista classicista na antiga área de Berlim oriental.
As atrações em Berlim estão dispersas em diferentes bairros, mas se mover entre eles é muito fácil, pois há uma boa rede integrada de ônibus e metrô e há vários pontos oficiais de informação turística. Além disso, também pude contar com o suporte de seus habitantes, que tem um perfeito domínio de inglês e foram sempre muito atenciosos ao me passar orientações. Ainda, a cidade dispõe de um serviço que não havia visto em nenhum outro local visitado: uma linha de ônibus que percorre seus principais pontos turísticos, tendo o mesmo trajeto dos ônibus das agências de “city tour”, mas por um décimo do preço.
Passei 6 dias em Berlim, explorando vorazmente as diferentes áreas da cidade (caminhei tanto que, infelizmente, o pé voltou a reclamar!). Também saí a noite e encontrei locais muito interessantes, onde prevalece uma cena alternativa, com diversas manifestações artísticas e muita música eletrônica e punk rock (com destaque ao complexo Kusthaus Tacheles). Durante o dia, também visitei muitos museus e galerias, tanto de exposições de arte, como de arqueologia e história. Inevitavelmente, por muitos momentos estive imersa nos fatos do século XX que tanto marcaram o país, como a primeira guerra mundial, a ascensão do partido nazista, a segunda guerra mundial, a divisão política do país, a construção, manutenção e queda do Muro de Berlim e a integração das duas Alemanhas nas últimas décadas.
Essas complementavam a colcha de retalhos formada por informações e impressões obtidas, principalmente, durante a visita a Rússia e Polônia. Porém, diferentemente do sentimento de pesar que prevaleceu nas visitas aos campos de concentração e áreas do gueto judaico na Cracóvia, sobressaia agora a raiva e uma forte indignação. Porém, essa não era especialmente direcionada aos vilões apontados pela história, mas agora principalmente à nossa hipocrisia (ou talvez ingenuidade?). Claro que ainda me sensibilizava com os dramas vivenciados pelas pessoas que sofreram os horrores das guerras e da repressão de governos totalitários, porém ao mesmo tempo me irritava a contradição de ver a comoção em relação a esses fatos históricos, enquanto prevalece uma apatia dos governos e das pessoas em relação às repetições contemporâneas de enredos similares. O que realmente foi aprendido com esses fatos históricos, quando convivemos, impassíveis, com a construção de novos muros, como por exemplo, na região da Cisjordânia? – esse, ironicamente, construído por Israel, um Estado que foi firmado para aqueles que foram vítimas de tantas atrocidades na Segunda Guerra Mundial! Ou quando vivemos alienados em relação às repressões, e até extermínios, de minorias étnicas ou religiosas nos confins da Ásia e África? – às vezes nem tão longe, como pode ser comprovado com a postura tímida e lenta dos governos europeus e da ONU durante os conflitos na região dos Bálcãs, onde houve exemplos de tentativas de limpeza étnica, como na Servia e Croácia.
Bom, como podem ver, essa tem sido a minha viagem: uma explosão de informações e uma montanha-russa de emoções. É uma experiência que não se resume a desfrutar lindas paisagens e fazer amigos, mas que intenta mergulhar na essência do meu ser e desse mundo que me rodeia. Assim, tenho vivido intensamente o “sentir” e o “refletir” sobre as novidades que têm me sido apresentadas, e que vêm resultando em inevitáveis processos de construção e desconstrução. Ah! Cláudia, querida, saiba que essa cigarra está cantando forte para sair da sua casca!
(sugiro que leiam esse texto escrito por minha irmã, o qual recebi de presente no dia de minha viagem: O canto da cigarra).
29 de outubro de 2008
Cerny Dull
Já estava no quarto mês de viagem e necessitava de um momento de descanso da rotina mochileira e de uma parada compulsória para dar repouso ao meu pé direito, que há semanas se mantinha inflamado. Foi pelo site da rede de albergues da juventude Hosteling International que encontrei um local muito econômico e confortável, numa região de montanhas no norte da República Checa,
Aproveitei também esse tempo e essa estrutura para cumprir uma dívida que tinha com o meu chefe, que era escrever um artigo científico sobre a “Dinâmica populacional da garça-vaqueira no Arquipélago de Fernando de Noronha”. E digo que foi interessante ter um novo contato com a ornitologia, depois de 4 meses de afastamento. Apesar de ter sido difícil pegar o ritmo nos primeiros 2 dias, em pouco tempo estava concentrada e redescobrindo o prazer da minha profissão – o que contrastou com o estado de apatia que me encontrava em relação ao trabalho pouco antes de sair para essa viagem.
Nesse período que estive em Cerny Dull estava introspectiva e minha socialização se limitava às formalidades com os funcionários do hotel e do restaurante. Apesar de a cabeça estar bem ocupada com a ciência, alguns pensamentos e emoções relativos a antigas feridas voltaram a aparecer. Primeiramente em sonhos, depois, também quando estava acordada. Eram pendências que eu considerava resolvidas, mas que parecem terem sido escondidas em mim, como quando se varrem sujeiras para de baixo de um tapete. O fato de eu ter saído da rotina de vigem, onde há novidades constantes, e ter entrado em um momento de silêncio, deve ter feito com que essas emoções pudessem vir à tona novamente.
Minha irmã Cláudia sugeriu que esses sentimentos não tinham mais que ser tratados por meio da racionalidade, já que meu discurso era maduro e coerente sem, todavia, diminuir o meu tormento. Por sua experiência pessoal disse que eu deveria, de alguma maneira, dar vazão às emoções ruins que estavam guardadas, mesmo que de forma violenta, como por meio de choro, grito, xingamentos para o ar ou socos em uma almofada, para depois seguir por um instante de paz e silêncio, em meditação.
Então, no dia que estava emocionalmente mais sensível, dei uma folga aos trabalhos científicos e investi no trabalho mental-espiritual, posso assim dizer. Sai para a floresta, onde realizaria minha sessão de expurgo, mas não sem antes pegar meus óculos escuros, considerando a possibilidade de ficar com olhos vermelhos e rosto inchado. Esse item seria essencial na hora do meu retorno ao hotel, já que seus funcionários estavam sempre a me acompanhar com olhares de curiosidade: “o que faz essa mulher do Brasil, tão calada e solitária, nessa estação de esqui fora de temporada, nos confins interioranos da República Checa?”. Não queria dar motivos para alimentar mais ainda a imaginação deles sobre mim.
Naquela tarde me despi de pudores e senso crítico, e permiti expressar as emoções guardadas sem julgá-las. Não convém detalhar, pois foi algo meio louco, sem roteiro, tudo muito experimental e intuitivo, sendo uma mescla de práticas psicoterapêuticas e místicas conhecidas por mim, junto com o que minha irmã sugeriu e o que ia inventando na hora. Há gente que pode estar me julgando como levemente insana – e estava mesmo – porém parece que emoções pendentes foram resolvidas, ou mitigadas, pois sinto que não as carrego mais comigo. É possível que tenham ficado alguns resíduos e que, num instante futuro, eles venham novamente à tona. Mas o que tenho percebido é que esses processos de limpeza são mesmo cíclicos, com períodos de calmarias e ressacas. Contudo, os momentos de paz têm sido cada vez mais longos e as ressacas cada vez mais curtas e amenas. Por isso busco para que um dia me encontre invariavelmente boiando em uma piscina e, quiçá, portando um coctel de frutas na mão!
Foram ao todo 7 dias em Cerny Dull, condicionados à finalização do artigo científico. Porém, já nos últimos dias eu estava bastante impaciente, com o desejo de retornar às minhas peregrinações. Ainda não tinha idéia para onde ir: Viena ou Budapeste? No sexto dia acordei com uma idéia fixa na cabeça: e por que não Berlim? Mudaria completamente o itinerário antes planejado, que seria seguir para o sul para depois entrar na Itália. Entretanto, inexplicavelmente, minha bússola interna apontava para o sentido contrário. Como venho respeitado cada vez mais minha intuição, deixei que ela me levasse para a capital da Alemanha.
26 de outubro de 2008
Polônia
De Praga, Marco, Helder e eu partimos em um trem noturno para a Cracóvia, sul da Polônia. Chegamos na manhã do dia seguinte, deixamos as bagagens no albergue e já saímos para explorar a parte histórica da cidade. Tínhamos que aproveitar cada minuto, pois lá só permaneceríamos 3 noites.
Cracóvia é uma das cidades mais importantes da Polônia. Ela se destaca por ser centro cultural e político do país, já que foi a capital da Polônia de
Vale destacar um fato que chamou muito nossa atenção durante esse trajeto. Visitamos uma igreja em plena hora da missa e ficamos impressionados com a grande quantidade de jovens que assistiam à cerimônia, fato cada vez mais raro nos países católicos da Europa por onde estive. Em Portugal, Espanha e França parece que a moçada mais jovem não quer saber muito de igreja. Além disso, vale também dizer que a beleza das polacas foi algo notado, principalmente pelos meus, atentos, companheiros de viagem.
Nesse primeiro dia fomos dormir mais cedo, exaustos, com o intuito de nos preparar fisicamente e mentalmente para o passeio do dia seguinte: iríamos bem cedo para a cidade vizinha de Oświęcim, ou Auschwitz em alemão, onde estão os maiores e mais conhecidos campos de concentração da Alemanha nazista! Lá funcionaram áreas de extermínio e de trabalho forçado de prisioneiros que vinham não só da Polônia, mas de diferentes países ocupados pelos nazistas. Distintas estimativas apontam entre 800 mil a 5 milhões de pessoas mortas, durante os 5 anos de funcionamento desses campos (1940 à 1945), enquanto os dados oficiais consideram o total de 1.1 milhão de pessoas, sendo em torno 90% de judeus, mas também uma parcela significativa de poloneses, ciganos, soviéticos prisioneiros de guerra e outros.
O que é conhecido como Auschwitz é na verdade um complexo formado por 3 campos de concentração próximos entre si (Auschwitz, Birkenau e Monowitz). O primeiro foi restaurado e transformado em um museu em memória àqueles prisioneiros que passaram por lá, sendo Birkenau um anexo para visitação, porém que não foi reformado. Por seu caráter, é um museu com entrada gratuita e foi considerado um patrimônio mundial pela UNESCO.
No ônibus conhecemos uma grega, chamada Koula, que viajava só e, então, juntou-se a nós. Iniciamos nossa visita pela área de Auschwitz. Essa é formada por cerca de duas dezenas de prédios de tijolos á vista (iguais aos da cidade cenográfica do filme A vida é bela!), onde funcionava o centro administrativo de todo o complexo Auschwitz. Contudo, parte dos prédios também mantinha alguns prisioneiros, principalmente poloneses e russos.
Alguns desses prédios estão abertos à visitação. Parte traz exposições organizadas pelos diferentes países que tiveram vítimas no complexo Auschwitz, com informações históricas, fotos, homenagens às vítimas e instalações de arte relacionadas ao tema. Outros expõem reconstituições de ambientes que existiam neste campo de concentração, como escritórios dos oficiais nazistas, recinto dos presos, (proto)banheiros, salas de tortura, prisões, câmaras de gás, crematório de corpos e até a sala das cruéis experiências científicas realizadas por Josef Menguele. As exposições são de grande qualidade, com um aporte muito bom de informações em várias línguas. Porém, o conteúdo de grande parte delas é muito forte, com apresentação de fotos de pessoas desnutridas, nuas, aterrorizadas, sendo humilhadas, violentadas ou mortas. Também são chocantes as instalações feitas com objetos pessoais dos prisioneiros, como com enormes amontoados de roupas, sapatos, malas, pentes e outros, principalmente aquelas feitas com roupas e sapatos das crianças que passaram por lá.
Aquilo tudo era muito intenso e perturbador. Um nó na garganta se formou desde que passamos pelo famoso portão com os escritos “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) e esse foi se apertando a cada novo pavilhão visitado. Já estava quase sufocada quando vivenciei o ápice dessa emoção, ao ver uma parede inteira com uma seqüência de fotos daquelas pessoas que faziam parte do movimento clandestino de resistência. Eram fotos tiradas para o registro dos presos, dentro do campo de concentração. A uniformidade provocada pelas peles claras, cabeças raspadas e roupas listradas se personalizava com a singularidade de cada fisionomia e olhar, que de tão expressivos, transcendiam os limites do tempo e espaço em que foram impressas as imagens. Aquela multidão estava ali, presente, a nos observar e intimidar.
Havia alguns olhos de medo e horror, mas a maioria era de olhos de dignidade, perturbadoramente fixos em direção à câmera e erguidos por cabeças que se postavam em angulação superior a 90 graus, em relação aos magros pescoços. Eram de pessoas que, mesmo com medo, acima de tudo tinham a coragem de se engajar em um movimento de luta contra aquela situação calamitosa. Desafiada, meus olhos de vergonha foram escondidos por óculos escuros e dissolvidos em lágrimas, que ajudavam a desafrouxar o nó que me sufocava.
Depois de terminado o percurso no museu, seguimos para Birkenau. Esse campo é bem maior e apresenta uma paisagem mais agressiva que Auschwitz. Na entrada há uma ampla esplanada e os restos da linha férrea por onde chegavam os presos. Na parte interior as construções são mais rústicas e quase não existem árvores. Dessas construções, há apenas alguns barracões de madeira que sobreviveram ao tempo e às investidas dos exércitos aliados, como também dos próprios nazistas, que no final da guerra buscaram apagar as comprometedoras memórias daquele holocausto. Entretanto, da maioria dos barracões só restaram as bases, de alvenaria.
O interior desses barracões é bruto e estes mais se parecem a estábulos para animais (ou pior!). Contudo, essa foi a morada da maioria dos judeus que permaneceram presos no complexo de Auschwitz, os quais sobreviveram à fase de seleção. Na realidade, Birkenau (também conhecido como Auschwitz II) foi um grande campo de extermínio e em torno de 3/4 dos prisioneiros que por alí passaram foram exterminados logo após sua chegada. Quando esses desembarcavam dos trens, os oficiais nazistas escolhiam e separavam alguns, com características físicas mais aptas ao trabalho. O restante, que incluía principalmente crianças, idosos e muitas mulheres, era mandado direto para as câmaras de gás. Os selecionados iriam trabalhar como escravos em indústrias e passar por um processo de seleção diária, ou seja, sobreviver em condições de esforço físico pesado, pouca alimentação, falta de higiene e constantes humilhações.
Lá encontramos vários grupos de estudantes secundaristas vindo de Israel e que estavam visivelmente emocionados. Nós também estávamos perturbados e introspectivos.
Ao regressarmos a Cracóvia nos sentíamos exaustos, mas a queixa de nossos estômagos nos arrastou à área histórica da cidade. Só a vivacidade da praça central foi capaz de mudar os nossos humores. Ela estava cheia de gente e artistas de rua, a exemplo de habilidosos músicos, dançarinos e malabaristas. Fomos, então, recarregados por alimento e arte aquela noite, o que proporcionou uma noite de sono mais leve para todos.
No dia seguinte visitamos uma mina de sal do século XIII, que chega a
A manhã seguinte foi triste para mim, pois meu querido amigo Marco seguiria para Paris, onde pegaria um vôo de volta ao Brasil. Na verdade fui sentindo o vazio da despedida ao longo do dia, pois quando ele partiu eu estava dormindo. O único consolo à dor de sua ausência foi o prazer da companhia do Helder por mais um dia. Nessa tarde aproveitamos para explorar o antigo bairro judeu de Cracóvia e estivemos imersos, novamente, nas marcas que a Segunda Guerra deixou no país. Lá visitamos um museu de cultura judaica, que conta a história desse povo na região do sul da Polônia, mostrando sua cultura e os diversos períodos de perseguição anti-semita ao longo da história. Também fomos à área do antigo gueto judaico, onde eles foram confinados pelos nazistas antes de serem enviados para os campos de concentração. Os prédios em péssimo estado de conservação e a quantidade de escombros sugerem que essa área é bastante desvalorizada. De maneira geral, nessa região a comunidade judaica é incipiente, já que muitos fugiram antes da guerra, a maioria foi morta durante o holocausto e a maior parte dos que sobreviveram partiu, especialmente para o Oriente Médio, após a criação do Estado de Israel.
Nessa noite, Helder e eu pegamos um trem noturno de volta a Praga, para na manhã seguinte nos despedirmos apressadamente. Eu pegaria um trem com destino ao norte da República Checa e ele um vôo para Portugal. Alcancei o comboio no último minuto e foi só o tempo de baixar a adrenalina para começar a sentir a ausência dos amigos, uma sutil sensação de vazio. Horas depois, meu consolo viria das verdejantes montanhas da bucólica Cerny Dull.
17 de outubro de 2008
Saudades do meu sobrinho Caio Cebolinha!

Saudades é um sentimento que tem sido uma constante na minha vida há anos, e nessa viagem não tem sido diferente. Esse aí é o meu lindo sobrinho, uma das pessoas que mais sinto falta por não estar ao lado e acompanhar seu desenvolvimento. Além dele, estão os amigos e o resto família. É um custo que tenho que assumir ao fazer esse vôo. Dói, mas está valendo a pena.
11 de outubro de 2008
Praga
Na saída da Rússia, eu tinha duas preocupações. Uma delas era o registro de estadia do Marco que estava irregular. Essa era mais uma burocracia russa, relativa à obrigatoriedade de se obter um registro em cada cidade em que se passa mais que 3 dias. Fizemos uma confusão em relação às regras e ele ficou sem esse documento. No entanto, ouvimos estórias que isso poderia trazer problemas na saída do país, com exemplos de pessoas que tiveram que pagar uma alta multa ou que ficaram presas na alfândega e acabaram perdendo o avião. Eu estava super tensa com isso, mas o Marco, principal interessado, era o mais tranquilo.
A segunda preocupação era a entrada na União Européia. Devido a acordos bilaterais com o Brasil, nós brasileiros podemos ficar até 3 meses como turista nos países do bloco, sem ter a necessidade de aplicar um visto. Eu saí da França pouco antes de vencer esse período e iria regressar para receber um novo carimbo de entrada. Só que as regras não são muito claras e não tinha certeza se iriam permitir a minha entrada. Ouvi relatos de gente que mora na Europa com visto de turista e sai periodicamente para Marrocos, Suíça ou outro país fora da UE para renovar a data de entrada. Mas também ouvi que teria que esperar 3 meses para ter novo carimbo. Pesquisei sobre o assunto e não havia encontrado informações esclarecedoras.
Passamos pelas fronteiras e não tivemos problemas, tanto na saída do Marco, quando nem perguntaram pelo papel de registros, como na minha entrada na República Checa, quando olharam meu passaporte com tanta displicência que até o carimbaram numa página fora de ordem e de ponta cabeça! Só tínhamos, então, que comemorar à chegada em Praga.
Logo no aeroporto já aconteceu um evento hilário. Havia um grupo muito grande de garotos em torno de uns 10 anos de idade, todos com um mesmo uniforme, fazendo um estardalhaço no saguão do aeroporto. Perguntamos a eles de onde vinham e o que faziam. Um deles respondeu que eram russos e faziam parte de uma equipe de hóquei. O Marco, que usava uma camisa do Araçatuba Futebol Club, bateu a mão no peito e disse: “Eu sou jogador de futebol do Brasil!”. Aquele menino prendeu a respiração e arregalou os olhos. Complementando a sua lenda, disse que ele era um dos mais famosos futebolistas do país e estava vindo para a Europa para jogar no Barcelona. Nessa hora o menino correu e, gritando, chamou o resto de sua equipe.
A molecada começou a rodear o Marco, se espremendo para tirar fotografias e pedir autógrafos. Nosso atleta pousou para algumas fotos e depois disse que estava bom. O mais engraçado de tudo isso é que todos no aeroporto começaram a observá-lo com grande curiosidade: “quem será ele?”. E teve até uma mulher, do tipo femme fatale, que passou encarando a suposta celebridade. Saímos do aeroporto às gargalhadas e toda vez que nos lembrávamos da cena, voltávamos a rir.
O bom astral continuou com o encontro de um novo amigo ainda no metrô, a caminho do albergue. Era um português que veio nos pedir informações e, por coincidência, iria para o mesmo endereço que nós. Seu nome era Helder, era da região do Porto e viajava só. A empatia foi imediata e, desde então, se juntou a nós até o último dia de suas férias.
Chegamos ao albergue, deixamos as malas e fomos explorar a cidade. Praga tinha um desafio muito difícil, que era superar as altas expectativas que nós três tínhamos em relação a ela – considerando sua fama de ser uma das mais belas cidades da Europa.
Fico feliz em dizer que ela não desapontou os seus severos críticos, e até mesmo superou suas expectativas. Primeiramente, porque a cidade é mesmo belíssima. Apesar de ter sido muito bombardeada durante a segunda guerra, a destruição de seu patrimônio histórico-arquitetônico foi menor do que muitas outras metrópoles daquele tempo, o que faz dela um museu ao céu aberto. Praga tem um centro histórico muito bem preservado, que reúne uma coleção de prédios de diferentes períodos, estilos arquitetônicos (barroco, gótico, renascentista, neoclássico, art nouveau...) e cores! Entretanto, se destacam as impressionantes, altas e pontiagudas torres góticas que despontam em diferentes pontos da cidade.
O segundo ponto forte é o lado cultural e artístico da cidade. Há tempos Praga tem sido um importante centro de cultura de sua região, tanto que abriga a universidade mais antiga da Europa Central e do Leste, fundada em 1348. Hoje, ao caminhar por suas ruas, se vê muitos teatros (incluindo de bonecos fantoches) e casas para concertos de música clássica ou jazz. A Ponte Charles é o ponto de concentração ao ar livre de artistas plásticos, artesãos e músicos de excelente qualidade, que estão presentes principalmente no verão, já que seu inverno é marcado por baixas temperaturas e neve.
Esse lado cultural tem um efeito sinergético com o terceiro e quarto pontos fortes da cidade: lá se vende por um preço bem barato a sua cerveja nacional Pilsner Urquell, que é uma das melhores da Europa, e a sua comida tradicional que é deliciosa. Consequentemente, o melhor que se tem para fazer em Praga é intercalar entre caminhadas por suas ruas e sentadas nas mesas de seus bares, restaurantes e clubes. Coincidência ou não, Praga se localiza numa região geográfica chamada Boêmia, que abrange o oeste do país. Será que essa sua essa sua aptidão para boemia é natural?
Por essas razões descritas acima, nos últimos anos Praga se tornou um dos destinos mais procurados da Europa. Aos poucos os preços têm aumentado com a chegada do turismo de massa, e a tendência é que nos próximos anos ela fique mais cara ainda, pois a República Checa está prestes a adotar o euro como sua moeda nacional. Então, sugiro àqueles que se interessaram, que corram para visitá-la!
Infelizmente as fotos do Marco com seus fãs foram perdidas, já que o cartão da máquina deu problema. Descobri, então, que o leitor de cartão que estava danificando os meus cartões. Que raiva!
8 de outubro de 2008
Noticias de uma desertora
ihhh galera, sei que estou atrasadissima nos posts e estou em falta com emails e noticias. E que aqui na Italia a coisa esta intensa mesmo, nao paro um minuto em casa. Cada cidadezinha, cada canto aqui e precioso! Tenho andado muito (apesar da inflamaçao ainda persistir no pe) e so chego a noite para dormir. Vou tentar me organizar melhor....
Agora estou em Florença e fazendo viagens de um dia para umas cidades vizinhas na Toscana.
saudades dos amigos e familia,
Cigarrra
(PS: nao ha acentos nesse teclado)
21 de setembro de 2008
Vivências em Moscou
Após 5 dias em São Petesburgo era hora de embarcarmos (Marco e eu) para Moscou. Cumprindo os padrões russos, a compra de passagens de trem diretamente nos guichês da estação ferroviária também não costuma ser uma das tarefas mais fáceis. Por essa razão, mesmo alguns turistas independentes buscam intermediários, como hotéis e agências turísticas, pagando uma taxa extra pelo serviço.
Não sabíamos dessa dificuldade e fomos pessoalmente à estação de trem Moskoviskiy, em São Petesburgo. Esperávamos gastar, aproximadamente, meia hora nessa tarefa, mas passamos quase duas horas no local. Primeiramente, porque o prédio é muito bonito e ficamos um tempo à apreciá-lo e fotografá-lo. Depois, quando partimos para a compra dos bilhetes, não encontramos facilmente os guichês de venda.
Seguimos diferentes instruções equivocadas. Por fim, encontramos uma fila na qual, mesmo com dúvidas, entramos. Fomos atendidos por uma senhora, que imediatamente nos pareceu ser do tipo não muito simpático. Como ela não falava nada do inglês e nós tão pouco do russo, apresentamos um papel contendo os nomes de nossos destinos e a hora aproximada que queríamos embarcar. Tentamos complementar com sinais, mas a tal mulher não se mostrou nem um pouco paciente: fez um movimento negativo com a cabeça e sem o menor pudor nos escorraçou da fila. Foi tão grande sua brutalidade e indisponibilidade conosco que, após segundos atônitos (… “O silêncio que procede o esporro”), só nos restou cair em gargalhadas. Na verdade, já havíamos passado por situações semelhantes, mas em menor escala.
Os russos me pareceram bem distintos em relação a maneira de ser do brasileiro. Costumam ser muito diretos e, às vezes, rudes. A cada vez que era tratada de maneira ríspida sentia-me magoada, reação que não conseguia evitar. Zaid me disse que quando se aprende a falar russo a brutalidade diminui. Considera que, sendo eles descendentes de uma sociedade que outrora foi tão poderosa, não gostam de se “submeter” a uma língua estrangeira, ainda mais ao inglês. Pode até fazer sentido, mas observei que quando eles se relacionam entre si, o tratamento também oscila entre agressividades e gentilezas, e tudo isso dentro de uma mesma conversa. Parece que já estão imunes a essa forma de tratamento mútuo e não sobrevalorizam um ato estúpido ou de má vontade.
Claro que esse comentário se trata de uma generalização, de um padrão frequentemente observado, tanto em relação ao esteriótipo brasileiro, quanto ao russo. Também encontramos pessoas muito prestativas e gentis em nosso caminho. Entre elas estava um casal que se ofereceu a ajudar-nos, mesmo falando quase nada de inglês, mas apresentando disposição de entender e ser entendido com as ferramentas que possuíamos. Após falarem com a senhora do guichê, nos disseram que estávamos em um setor errado e nos levaram até o local onde encontraríamos as passagens que buscávamos. Como a fila estava grande, não permaneceram, mas escreveram um bilhete que serviria como uma “cola” a ser apresentada na cabine. Com esse pedaço de papel, mais a ajuda de outros simpáticos jovens russos que estavam também na fila, conseguimos nosso desejados bilhetes.
Partimos num trem noturno, em um tipo de cabine mais popular, com 2 beliches. O trem estava lotado, a temperatura em seu interior era muito quente e as janelas estavam lacradas. O Marco não teve dúvida, subiu em uma cama superior, tomou logo um comprimido de Dramim e em 10 minutos já estava abraçado a Morfeu. Eu fiquei na cama de baixo, quase que em estado de torpor, para conseguir suportar aquele calor. Em nossa cabine estava também um rapaz russo que vivia em Moscou. Era meio esquisito, mas gente boa. Tivemos sorte por não cair com alguém bêbado, exalando álcool, como muitos outros presentes no trem.
Na Rússia bebe-se muito. É notavel o hábito de se caminhar nas ruas, principalmente após o horário comercial, portando uma garrafa de cerveja na mão. É quase uma unanimidade e há tanto homens, como mulheres. No entanto, beber na rua é ilegal e, a priori, pode-se ser multado por isso, mas a cerveja é tão leve se comparada à vodka (bebida nacional), que ela é tolerada pelos policiais. Já os destilados são consumidos no interior dos bares, que por certo devem estar constantemente cheios, pela quantidade de gente alcoolizada que se vê nas ruas e o perfume marcante de vodka nos metrôs.
No trem conversei um pouco com o passageiro ao lado e depois caí no sono. Algumas poucas horas depois acordei. Estava claro e pela janela podia se ver a floresta de Conífera. Verde, vigorosa, alta, contínua e linda! Quilômetros e quilômetros de floresta que, de quando em quando, era interrompida por um pequeno vilarejo. Fiquei muito emocionada ao vê-la e queria ter acordado meu amigo geógrafo, mas ele estava dopado e desmaiado. Passei então àquele estado intermitente de sono, onde tive a oportunidade de obter recortes da evolução da paisagem a cada hora que despertava. Mais perto de Moscou a vegetação se tornou mais baixa e diversa, com outras árvores além das coníferas.
Quando chegamos em Moscou vimos que nosso albergue era um lar de família. Na verdade, uma agência que gerencia 2 albergues na mesma rua, aluga esse apartamento para encaminhar hóspedes sobressalentes na alta estação. Lá vive uma senhora e seu filho, além de uma outra família de 3 pessoas. São três quartos, sendo um ocupado por essa família e os outros dois utilizados pelo albergue. O filho tem uma cama cativa em um dos quartos do albergue, enquanto sua mãe dorme no quarto ou na cozinha (em uma pequena cama de armar), dependendo da quantidade de hóspedes no apartamento.
De imediato gostamos muito de lá, pois essa mesma senhora era quem se responsabilizava pela limpeza, impecável. Também nos afeiçoamos muito a ela, pois era informal e muito risonha. Apesar de não dizer uma palavra em inglês, conseguimos nos comunicar perfeitamente, sempre as custas de muita mímica e risadas.
Foi um susto quando na noite do primeiro dia, ao chegar da rua, disseram que tínhamos que nos mudar para o albergue principal. O problema era que eu havia me confundido e feito reservas diferentes para mim e para o Marco: ele tinha uma cama reservada neste apartamento e eu no albergue principal. Nos transferimos e passamos uma noite terrível, pois este outro (o tal albergue) era sujo, quente e apertado. Ainda, no quarto que ficamos havia 8 camas, sendo que as outras 6 estavam ocupadas por homens, todos feios, suados e dormindo de cuecas, sem lençol (ninguém merece!!!). No dia seguinte insistimos que queríamos voltar para o apartamentdo daquela senhora e, mais tarde, nossa babuska veio pessoalmente nos buscar, com um sorriso orgulhoso no rosto.
O principal interesse que tínhamos em Moscou era a visitar os emblemáticos e grandiosos Kremlin e Praça Vermelha. Acordamos bem cedo para estarmos postos na fila do mausoléu de Lênin. Este é um prédio de mármore no centro da Praça Vermelha, onde dentro descansa o corpo embalsamado de Lênin. No entorno do prédio estão depositadas cinzas de figuras importantes da revolução russa e do período socialista (entre elas as de Stalin), havendo também placas, estátuas e bustos em sua homenagem.
Após aproximadamente uma hora de fila, chegou a nossa vez de ver o grande líder da Revolução de 1917. Descemos as escadas do prédio de mármore, entrando em um ambiente cada vez mais gélido, silencioso e escuro, havendo apenas uma iluminação fraca de cor vermelha. Depois passamos brevemente em uma sala onde está o corpo preservado. Esse é o único momento que se tem com Lênin, pois se diminuir o ritmo da passada um dos guardas vai ordenar para que continue andando. Tirar fotos no local é absolutamente proibido. Lá me senti de uma forma estranha, influenciada pelo clima macrabo do local, pelo olhar opressivo dos guardas e pelo sentimento de respeito a uma das grandes figuras de nossa história moderna, mas que ali mais se parecia a um boneco de cera. De qualquer forma valeu a pena ir. O Marco foi até duas vezes, uma sem óculos e a segunda com óculos, onde pôde se certificar que aquele era um corpo humano de verdade.
Depois visitamos e tiramos muitas fotos de outros pontos fantásticos na Praça Vermelha, como a famosa e colorida Catedral de São Basílio e a Catedral Kazan, onde assistimos parte de uma missa ortodoxa. Entramos no interior do Kremlin, onde vimos de longe os edifícios admnistrativos, e passamos por igrejas, museus e palácios. Estivemos acompanhados de um casal de brasileiros que conhecemos na praça, mas no dia seguinte já partiriam para a jornada da transiberiana.
Além dos muros vermelhos desse complexo, Moscou também pareceu ser uma cidade muito interessante. Essa metrópole, com aproximadamente 9 milhões de habitantes, é marcada por contradições, apresentando diversos símbolos do período socialista e uma enxurrada de elementos que fazem relembrar que hoje trata-se de uma economia de mercado. Há uma grande poluição visual, com enormes painéis de propaganda e letreiros luminosos espalhados pela cidade, e também atmosférica, que dá um caráter cinza e denso à cidade. Ao mesmo tempo, a cidade mantém locais belos e interessantes, como áreas verdes, esculturas ao ar livre, prédios históricos, cadetrais ortodoxas, estações de metrô e as paisagens ao longo do Rio Moskva. Entre elas a mais impressionante é a Catedral de Cristo o Salvador, com suas enormes cúpulas douradas, e que tem em sua frente uma ponte sobre o Rio Moskva, onde se pode ter uma ótima vista da Praça Vermelha e do Kremlin.
Ficamos 5 dias na cidade e passeamos bastante. Por suas contradições e pela característica de seu povo, havia momentos que a adorávamos e outros que a odiávamos. Mas no balanço geral valeu muito a pena ter ido a esse país, onde ainda planejo voltar, mas para fazer a rota de trem Transiberiana, de Moscou a Pequim.
Termino fazendo um comentário deselegante (não pude evitá-lo!) e já peço desculpas antecipadas àqueles que se incomodarem com isso, mas outro ponto de destaque em Moscou (também em São Petesburgo) é sua sociedade desigual! E não estou me referindo aos extremos, marcados pela presença de limosines e outros carrões em frente às casas de jogos, e de senhoras sexagenárias pedindo esmolas na rua. Esse é um assunto muito complexo e eu nem saberia abordá-lo aqui com a profundidade necessária. Estou falando, isso sim, da relação mulheres bonitas versus homens feios que se vê nas ruas. As russas são realmente lindas, umas bonequinhas, e algumas impressionam de tão simétricas e perfeitas. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo dos homens, que em momento algum encantaram os meus olhos. Para mim esse aspecto chamou a atenção, por sua desproporcionalidade. Claro que existe aquela máxima que gosto não se discute, mas sei não…, este pareceu ser um problema tão intrínsico e crônico quem nem revolução pode dar jeito. KKKKKKKKKKKKK
16 de setembro de 2008
Rússia: o primeiro contato
Para um turista independente, a viagem à Rússia começa antes mesmo do desembarque em seu território. A obtenção do visto de entrada ainda tem seus melindres, apesar do país estar cada vez mais abrindo suas portas para os estrangeiros. Sendo um dos resquícios da burocracia e controle soviéticos, é necessário que se declare o itinerário completo, com a comprovação de reservas para todos os dias, que devem estar atreladas a uma carta convite emitida por uma agência de turismo russa. Isso é muito limitante para quem prefere sentir o local e decidir sobre o seu trajeto ao longo da viagem, como tenho feito até agora. Mas de qualquer forma, a Rússia para mim era um símbolo, um mistério, e tinha muita curiosidade conhecê-la. E se essa era a única maneira de entrar lá, segui então suas regras, apesar de aparentemente inúteis.
Na realidade, os trâmites são simples, só é preciso fazer as próprias reservas pela internet, contatar diretamente uma agência russa para eliminar os custosos intermediários no Brasil e ter a disposição de pagar 30 euros para uma agência que só tem o trabalho de imprimir uma carta padrão. Com esses documentos na mão, mais um formulário preenchido e o passaporte, é possível conseguir o visto em até 10 dias úteis.
Por causa dessas burocracias – associadas à incipiente infra-estrutura para recebimento do turista, o inflacionado preço cobrado pelo setor hoteleiro e as dificuldades na comunicação (o russo utiliza um alfabeto próprio, o cirílico, e poucas pessoas falam o inglês) – é baixa a quantidade de pessoas que se aventuram a viajar de forma independente no país. A grande maioria dos visitantes chega por meio de pacotes turísticos.
Como essa não era a minha proposta, minha viagem se iniciou com a busca de hospedagens em São Petesburgo e Moscou, que deveriam seguir dois critérios principais: baixo custo e boa localização. Para São Petesburgo encontrei um albergue localizado no coração da cidade: a Av. Nevsky Prospekt! A diária era barata para o padrão de hospedagem russa e as fotos expostas exibiam um ambiente razoável (o que me fez constatar, posteriormente, que um bom ângulo fotográfico pode criar maravilhas!). Algo parecido foi também encontrado em Moscou.
Cheguei na Rússia dia 12 de agosto, por avião, de Paris a São Petersburgo. Com a reserva de meu albergue em mãos, estava decidida a ir ao meu destino via trasporte público, como forma de imersão na vida cotidiana da cidade e de fuga da exploração exercída pelos taxistas de plantão nos aeroportos. Mas ao colocar os pés na rua, tive a dimensão da aventura que me esperava. Todos os sinais estavam em cirílico, diferentemente do endereço que eu carregava e do simplificado mapa que havia no meu guia de viagem, ambos no alfabeto da língua inglesa.
Sem uma cabine de informação ao turista, recorri a um tipo que tinha aparência de aluno MBA (Master of Business Administration) e perguntei se falava inglês. Um movimento negativo com a cabeça reduziu todas as minhas expectativas em relação a uma jornada mais fácil e certeira. Então, lancei a eficiente comunicação truncada: “Metro?”. Um sorriso e um dedo indicador apontado para um micro-ônibus (as famosas marshrutkas) renovaram minhas esperanças. Sabia que em qualquer estação de metrô estaria bem encaminhada, pois tinha a indicação do nome da estação de metrô mais próxima, também chamada Nevsky Prospekt. O problema é que não sabia como pronunciar seu nome e tão pouco sua escrita em russo.
À caminho da estação de metrô encontrei no meu guia uma tabela de correspondência das letras do alfabeto russo. Comecei a passar o nome que tinha para o Russo, e cheguei em Невскй Лрослект. Entretanto, não tinha seguraça se aquilo estava correto. Mas, por uma grande coincidência, olhei ao lado um pequeno cartaz comercial colado na janela e vi lá escrito: Невский проспект. Perfeito! Foi uma trascrição bem aproximada e com ela foi fácil chegar à estação desejada.
Na saída do metrô não sabia que direção tomar, já que não encontrava os números dos prédios ao redor e a placa com o nome da rua. Então usei meu útimo trunfo, um detalhe importante que trazia na indicação do meu albergue. Por grande ironia, minha acomodação russa estava localizada em cima da lanchonete Mc Donald’s!
Postada em frente a um belo prédio do século XVIII, que carregava um destoante “M” de um amarelo reluzente em sua fachada, encontrei uma porta lateral com um pequeno interfone ao lado. Apertei o número do apartamento indicado na reserva, uma, duas, três, quatro vezes. Nada! Sem resposta. Subitamente, apareceu um jovem casal com a chave daquela porta e entrei no vácuo deles. A beleza da fachada do prédio histórico contrastava com a má conservação de seu interior: paredes descascadas e sujas, pisos quebrados, fiação exposta e um forte odor de mofo.
Muito apreensiva naquele ambiente hostil, subi as escadas debruçada no conforto que a presença daquele casal me proporcionava. Tentei me comunicar com eles, perguntando se alí havia um hostel. Respondendo em russo, ele fez sinal para que o seguisse. No terceiro andar ele parou em frente a uma porta, onde haviam pelo menos 5 diferentes campainhas. Tentei todas e nenhuma funcionou. A minha expressão de desolamento despertou uma imediata reação naquele jovem que passou bater na porta com muita força. Tamanho alarde surtiu efeito.
Um rapaz de ascendência árabe apareceu, perguntei se alí era o Right on Nevsk' Hostel e para minha surpresa, com um perfeito inglês, ele me respondeu: - Você tem certeza que está no local certo?- Mostrei o papel que trazia comigo e, enquanto ele analisava minha reserva, eu analizava o cenário que o rodeava. A entrada do apartamento era um depósito: um decrépito sofá se posicionava em frente a uma mesa coberta de caixas de papelão, cheia de objetos obsoletos. Gelei, havia caído em uma fraude! Eram quase 10 horas da noite, meu hostel era fantasma e estava em uma cidade conhecida por seus hotéis com preços exorbitantes!
Para não cair em descontrole, agí de maneira prática. Pedi para telefonar para o único contato que tinha na cidade, uma pessoa da rede Couch Surfing (CS). Liguei, expliquei minha situação e ele me respondeu que não podia falar naquele exato momento, mas que me ajudaria, retornando a ligação em 30 minutos.
Ao mesmo tempo, aquele rapaz à minha frente mostrou uma expressão de alívio e disse: – Você está certa! É aqui mesmo. Encontrei o email do Isaac, que é o dono desse apartamento. Ele aluga quartos para mensalistas, mas alguns deles têm sido feitos de dormitórios para turista. Desculpe, mas não sabia que tinha esse nome de Right on Nevsk' Hostel . O estranho é que quando ele vai receber alguém, sempre fica de prontidão.
Assim, ele discou um número e me passou seu celular. Ao atender, me identifiquei e, àquela altura já muito irritada, expliquei minha precária situação. Isaac se desculpou dizendo que me esperava para o dia seguinte e, para meu espanto, me convidou para cruzar a avenida e acompanhá-lo em sua última cerveja. Para mim aquilo era um abuso, um desrespeito ao meu cansaço, uma falta de profissionalismo, o que me fez responder, de forma ríspida e contundente, que o esperaria lá.
Enquanto esperava, iniciei uma conversa com aquele rapaz mouro. Ele se chamava Zaid, vinha das ilhas Maurícios, havia acabado de finalizar seus estudos de medicina na cidade e vivia em quarto alugado naquele apartamento. Era uma pessoa muito educada e foi me deixando mais relaxada e confiante. Fomos tomar um café na cozinha e chegaram Isaac e sua amiga Júlia. A princípio ele me pareceu muito bêbado, por seu andar cambaleante. Mas depois vim a descobrir que estava parcialmente bêbado e que a falta de segurança na passada era também resultado de sua cegueira. Isaac, que só enxergava vultos, era um músico e compositor de origem neozeolandesa, que foi atraído pela aura musical da cidade, adornada com nomes célebres como Tchaikovsky e Rachmaninov. Era dele o piano situado na sala, a única peça de maior valor encontrada naquele cômodo.
Juntaram-se a nós dois sexágenários, meio lunáticos e também inquilinos. Percebi então que estava em um autêntico relicto de uma Kommunalka, apartamentos comunitários onde vivia 68% da população de São Petesburgo na década de 1930, devido à nacionalização dos imóveis residenciais (Alguém já assistiu Bonecas Russas? Lá mostra um). Só que esse se tratava um apartamento privado!
O estranho era que, mesmo naquela bagunça, a cada minuto me sentia mais a vontade, atraída por esse típico cenário soviético e pela excentricidade daquelas pessoas. Elas me faziam recordar os personagens de Gorky, a plebe social russa daqueles contos narrados com grande entusiasmo por um ex-namorado poeta, que inspirava o meu imáginário sobre aquele distante e complexo país.
Comecei a pensar no que faria quando meu contato CS ligasse. Será que deveria sair daquele apartamento localizado no centro da cidade e meu ponto de encontro com Marco, um grande amigo brasileiro que já estava à caminho da Rússia? Além disso, já estava gostando daquele lugar e o quarto onde ficaria instalada não me parecia tão ruim como o resto da casa. Optei por ficar. (Foi uma boa escolha, pois tanto eu, como o Marcão, adoramos ter ficado lá. Com aquele pessoal vivenciamos a noite mais louca e cafona da nossa viagem!)
Assim, quando já estava estabelecida, a fome, até então camuflada pela ansiedade, despontou com grande intensidade. Era quase meia noite e perguntei onde encontraria um local aberto para comer. Responderam que, àquela hora, a melhor opção seria o Mc Donald’s logo abaixo, que funcionava 24 horas. A recusa foi imediata, considerei impensável ter a minha primeira refeição russa no maior símbolo da sociedade de consumo capitalista (admito que tal resistência desmoronou ao longo da viagem, por motivos de imediatismo e comodismo).
Satisfeita por um sanduíche comprado em um pequeno mercado local, e após um delicioso banho, pude finalmente relaxar. Deitada na cama, os pensamentos ainda estavam a mil com a reconstituição do dia vivido. Apesar de exaustivo, sabia que tinha valido a pena a experiência de emergir numa Rússia in natura, com suas dificuldades e contradições, sem os filtros e os amortecimentos que viriam se tivesse optado pelas facilidades de um pacote de turismo fechado.
Sobre São Petesburgo
São Petesburgo é a segunda maior cidade da Rússia, depois de Moscou. Está localizada no noroeste do país, na costa do Mar Báltico, e é cortada pelo rio Neva e vários canais menores, seus afluentes. Apesar de ter sido fundada apenas em 1703, é uma cidade de grande importância histórica, já que foi capital do Império Russo por mais de 200 anos. Em 1918, período pós revolução Russa, a capital foi tranferida para Moscou, devido à localização fronteiriça de São Petesburgo ser considerada suceptível de invasão por exércitos inimigos. Além disso, também é um importante centro cultural do país, tanto nos dias de hoje, como no passado.
Apesar de já ter sido chamada de Leningrado por 67 anos (1924–1991), uma homenagem póstuma a Lenin após 3 dias de sua morte, é uma cidade que faz relembrar mais o período de sua monarquia, do que o da república socialista, ao contrário de Moscou. Claro que isso está relacionado à mudança da localização do poder central entre esses dois períodos. Ainda assim, são encontrados preservados alguns marcos do período socialista, como pinturas e esculturas com motivos revolucionários nas estações de metrô, algumas esparsas estátuas em homenagem aos seus líderes e o museu Aurora (um navio militar que foi usado em favor dos revolucionários bolcheviques em 1917). Porém, muitos dos nomes de ruas e locais, que prestavam homenagem aos revolucionários e socialistas, foram renomeados após o fim da União Soviética.
As principais atrações da cidade são mesmo as residências imperiais, como por exemplo o fantástico Peterhof com seus jardins, estátuas e fontes, e o Palácio de Inverno, residência oficial dos imperadores russos e onde está hoje localizado parte do Museu Hermitage. Esse museu é o segundo maior da Europa, e mantém uma vasta coleção de arte e alguns cômodos que exibem a decoração do período imperial. Para mim e para o Marco, essa foi a atração número 1 de São Petesburgo!
Também destaco como imperdível a igreja Savior on Blood, com suas cúpulas douradas e coloridas. Contudo, caminhar sem destino na área histórica da cidade é uma ótima pedida, onde se pode ver canais e belos prédios, tanto anônimos, como conhecidos, principalmente de estilos barroco e neoclássico.
Vale também um passeio nas profundas estações de metrô, localizadas a dezenas de metros abaixo da terra e apresentando afrescos, refinados lustres e detalhes em mármore e bronze. Mas aos que forem visitar a cidade, cuidado ao tirar fotos, pois é oficialmente proibido por ser considerado um local estratégico para no caso de conflitos bélicos. Eu e o Marco tiramos várias, mas sempre receosos com o fato de podermos tomar uma multa. Entretanto, a única repreensão que recebemos veio de um rapaz que estava a espera do metrô na Estação Nevsky Prospekt, mas depois percebemos que ele se incomodou com a câmera pois fazia parte de uma gangue especializada em roubos dentro do metrô.
Assistimos a uma cena de assalto, onde uma parte da gangue bloqueia a passagem na entrada do vagão, enquanto outra parte pressiona as pessoas contra o bloqueio, criando um tumulto que aproveitam para roubar carteiras e outros pertences. Infelizmente, esse é um dos grandes problemas da cidade, suas gangues de batedores de carteira, estelionatários e de grupos que praticam violência por motivos de intolerância racial. Zaid, com sua feição árabe e pele escura, disse qua não anda no metrô à noite, precaução que seguem também outros asiáticos e africanos que conhece.
Sobre meu amigo Marco
Foi uma felicidade muito grande encontrar o primeiro amigo que veio se juntar à minha jornada. Desde que anuncei a viagem, ele logo me disse que tentaria me encontrar em algum lugar. Falou em Índia e Rússia. Porém ele não era o único, muitos outros também fizeram suas previsões. Na verdade, não me enchia muito de expectativas, por que entre uma promessa numa mesa de bar e a compra de uma passagem existe um longo caminho.
Mas o Marco foi ponta firme. Defendeu seu doutorado e se deu de presente essa viagem. Posso dizer que esse foi um presente compartido, pois sua visita foi um regalo para mim também.
Com ele saí da minha rotina, do meu prumo: não fiz alongamentos e meditações diárias, caminhei até detonar o meu pé, tomei cerveja até não fechar mais o primeiro botão da calça e comi em Mc Donald’s em plena Rússia! Tô correndo atrás do prejuízo até agora (sei que ele também, hehehe, pois tem ido à academia diariamente), mas como valeu a pena!
Ele é uma figura de astral muuuuuito bom e, se já faz qualquer um rir normalmente, lá isso foi potencializado. Tinha desenvoltura na comunicação, que mesmo com um inglês macarrônico (literalmente, pois sua segunda língua é mesmo o italiano), em 5 minutos já podia estar super amigo de um britânico ou de um russo que não fala nada além de russo. Não sei como se comunicavam, mas estavam sempre às gargalhadas.
O problema era quando se arriscava a usar a própria língua materna, pensando alto besteiras em português, contando com que ninguém fosse entender suas palavras. Eu gelava toda vez, já que brasileiro é onipresente e pode ter qualquer cara. Sem falar naquele monte de gente que hoje está falando o espanhol. Mas, por sorte, não enfrentamos qualquer problema, só risadas!
Valeu, amigo!
Quem será o/a próximo/a?
6 de setembro de 2008
Notícias
Essa última semana passei reclusa em uma pequena cidade no norte da República Checa, Cerny Dull, na expectativa de curar a inflamação no meu calcanhar (ah, e de perder aqueles quilinhos). Pensei que poderia ser um momento para atualizar meu blog, mas acabei direcionando o meu tempo para uma pendência que tinha com o CEMAVE. Produzi um artigo científico, no meio da minha viagem de volta ao mundo, no interior da República Checa!
O incrível foi que o espírito formiga baixou com tudo e tenho que reconhecer que não foi de todo mal. Reencontrei um tesão que estava meio apagado: a paixão pela ornitologia!
Agora estou em uma sala de espera da estação de trem de Praga, esperando meu trem para Berlim. Além das atrações turísticas da cidade, um dos motivos que pesou na decisão de seguir para o norte, uma mudança de planos de 180 graus, foi a vontade de entrar em uma loja cheia de binóculos e comprar um compacto para mim (bem levinho!). Estou com vontade de fazer mais passeios outdoor e quero reencontrar meus amigos passarinhos. Além do mais, tenho que já me preparar para ir à Ásia. Seria um crime, inafiançável, visitar a Índia e o Delta do Rio Mekong sem um kit-passarinhologa!
Bom, espero conseguir me organizar e colocar os posts da Rússia (St. Petesburgo e Moscou), Praga e Polônia (Cracóvia e Auschwitz). Lugares interessantíssimos!
Um beijo à todos aqueles que me acompanham,
sinto muitas saudades de vocês, amigos e família,
vibrações positivas!
Flá





















