Este ano eu completo 30 invernos (não são primaveras, pois nasci em julho). Os que já passaram por essa fase sabem que ela vem recheada de mudanças, tanto físicas (já me chamam de Tia ou Senhora na rua!!!), como comportamentais, e com isso vêm os questionamentos.

Após a miscelânea de emoções vividas nos últimos anos, resolvi tirar um tempo para mim. Quero vivenciar situações imprevistas e redescobrir a Flávia, que por vezes vinha se escorando em personagens circunstanciais.

Obtive a aprovação do meu pedido de licença sem vencimentos do trabalho, por um período de um ano. Só faltava isso para começar o meu planejamento de transformar minhas economias em passagens, albergues, museus, paisagens, espiritualidade, comidas, encontros e desencontros.

Dois mil e oito para mim vai ser o ano da cigarra! – Isso não é horóscopo Chinês, Maia ou Checheno; é o resgate da Fábula de La Fontaine (mais conhecida como Fábula da cigarra e da formiga), mas com uma inversão de sua moral: sim, paremos para cantar e apreciar a primavera, e desfrutemos o ócio!!!!!

7 de novembro de 2008

Berlim

Era uma linda manhã ensolarada e meu humor não poderia estar melhor. Eu era só alegria com a expectativa de voltar a vestir minha mochila e sair à exploração de novas localidades. De Cerny Dull pegaria um ônibus a Praga e de lá um trem para Berlim. Esses trajetos não eram diretos e haveriam paradas em cada cidadezinha ao longo do caminho. Seria praticamente um dia inteiro de viagem, mas não me importava, pois mesmo tendo um grande desejo de chegar, também me encantava a idéia de novamente observar o desfilar de paisagens a partir de uma janela.

O trem para Berlim estava lotado e a minha cabine tinha todos os 6 lugares ocupados. Esse era um pequeno compartimento que, com as grandes malas encaixadas entre nós, tendia a produzir efeitos claustrofóbicos. Minha sorte era estar ao lado da janela, pois me transpus ao ambiente externo e mantive a sensação de bem-estar que me acompanhava desde meu despertar. Na estação de fronteira entre a República Checa e Alemanha, inesperadamente, todos os companheiros de cubículo se levantaram e passei a ter um camarote só para mim. Estava anoitecendo, a paisagem natural que cruzávamos era linda e entramos no perímetro urbano de Dresden, já na Alemanha. Do trem podia-se avistar as luzes da cidade e alguns dos seus edifícios, que me deixaram muito emocionada! Eu parecia tão entusiasmada como no primeiro dia de viagem embarcando para Lisboa, contudo agora mais leve e confiante.

A melhor maneira que encontrei para aliviar um princípio de inquietude foi resgatar meus pequenos ganzás no fundo da mochila, que acompanhariam a vazão da emoção por minha voz. O resto da viagem se completou em tempo recorde, embalado pelo repertório de Clara Nunes, Chico Buarque, Teresa Cristina, Ataulfo Alves, Cartola e outros sambistas. A percussão estava meio descoordenada, mas o canto estava bonito... e alto! Talvez a empolgação tenha sido demasiada, pois vez ou outra pulavam miradas curiosas para dentro da minha cabine. Porém, elas não me incomodaram, pois me encontrava completamente feliz e despudorada!

A chegada em Berlim foi um jato de realidade, literalmente, pois caía uma chuva torrencial. Além disso, já era de noite, estava em uma metrópole e tinha que ficar mais atenta para efetuar uma segura e econômica chegada ao albergue. Esperei alguns minutos até a chuva se acalmar, consegui um mapa da cidade e a indicação que poderia ir a pé ao meu albergue, que se encontrava a poucas quadras da estação. Munida de meu guarda-chuva saí pelas ruas escuras, mas movimentadas, daquele bairro de Berlim.

No albergue tive uma agradável surpresa. Sua estrutura era muito boa e ao mesmo tempo ele era muito econômico. O valor era diferente do que estava apontado no guia, pois os preços eram cotados diariamente de acordo com a lotação dos quartos. Duas noites me custaram 12,00 e 9,00 euros, valores extremante baratos, se comparados com o resto da Europa ocidental! Nos dias seguintes constatei que não só a acomodação era econômica, mas também a alimentação e opções de passeios, um dos muitos motivos que me fizeram sair apaixonada por essa cidade!

Não sabia, mas Berlim é o terceiro destino turístico mais visitado da Europa e me admirei ao ver a quantidade de atrativos que esta metrópole oferece aos seus visitantes. Talvez por saber que a cidade havia sido intensamente bombardeada durante a segunda guerra mundial e por estar condicionada a visitar localidades européias com atrativos seculares, previamente menosprezei seu potencial. Uma bobagem! O diferencial de Berlim está na sua diversidade e na estimulante coexistência do histórico e do moderno, da cultura do capital e dos remanescentes socialistas, da disciplina e do anarquismo, e outras contradições.

Berlim é considerada o maior centro cultural, tecnológico e científico da Europa. Essa contemporaneidade está também materializada na arquitetura da cidade, onde predominam edifícios modernos, funcionais, sendo ao mesmo tempo criativos e arrojados. Entretanto, esses estão entre alguns remanescentes representantes de escolas arquitetônicas mais antigas e tradicionais, além dos prédios no estilo stalinista classicista na antiga área de Berlim oriental.

As atrações em Berlim estão dispersas em diferentes bairros, mas se mover entre eles é muito fácil, pois há uma boa rede integrada de ônibus e metrô e há vários pontos oficiais de informação turística. Além disso, também pude contar com o suporte de seus habitantes, que tem um perfeito domínio de inglês e foram sempre muito atenciosos ao me passar orientações. Ainda, a cidade dispõe de um serviço que não havia visto em nenhum outro local visitado: uma linha de ônibus que percorre seus principais pontos turísticos, tendo o mesmo trajeto dos ônibus das agências de “city tour”, mas por um décimo do preço.

Passei 6 dias em Berlim, explorando vorazmente as diferentes áreas da cidade (caminhei tanto que, infelizmente, o pé voltou a reclamar!). Também saí a noite e encontrei locais muito interessantes, onde prevalece uma cena alternativa, com diversas manifestações artísticas e muita música eletrônica e punk rock (com destaque ao complexo Kusthaus Tacheles). Durante o dia, também visitei muitos museus e galerias, tanto de exposições de arte, como de arqueologia e história. Inevitavelmente, por muitos momentos estive imersa nos fatos do século XX que tanto marcaram o país, como a primeira guerra mundial, a ascensão do partido nazista, a segunda guerra mundial, a divisão política do país, a construção, manutenção e queda do Muro de Berlim e a integração das duas Alemanhas nas últimas décadas.

Essas complementavam a colcha de retalhos formada por informações e impressões obtidas, principalmente, durante a visita a Rússia e Polônia. Porém, diferentemente do sentimento de pesar que prevaleceu nas visitas aos campos de concentração e áreas do gueto judaico na Cracóvia, sobressaia agora a raiva e uma forte indignação. Porém, essa não era especialmente direcionada aos vilões apontados pela história, mas agora principalmente à nossa hipocrisia (ou talvez ingenuidade?). Claro que ainda me sensibilizava com os dramas vivenciados pelas pessoas que sofreram os horrores das guerras e da repressão de governos totalitários, porém ao mesmo tempo me irritava a contradição de ver a comoção em relação a esses fatos históricos, enquanto prevalece uma apatia dos governos e das pessoas em relação às repetições contemporâneas de enredos similares. O que realmente foi aprendido com esses fatos históricos, quando convivemos, impassíveis, com a construção de novos muros, como por exemplo, na região da Cisjordânia? – esse, ironicamente, construído por Israel, um Estado que foi firmado para aqueles que foram vítimas de tantas atrocidades na Segunda Guerra Mundial! Ou quando vivemos alienados em relação às repressões, e até extermínios, de minorias étnicas ou religiosas nos confins da Ásia e África? – às vezes nem tão longe, como pode ser comprovado com a postura tímida e lenta dos governos europeus e da ONU durante os conflitos na região dos Bálcãs, onde houve exemplos de tentativas de limpeza étnica, como na Servia e Croácia.

Bom, como podem ver, essa tem sido a minha viagem: uma explosão de informações e uma montanha-russa de emoções. É uma experiência que não se resume a desfrutar lindas paisagens e fazer amigos, mas que intenta mergulhar na essência do meu ser e desse mundo que me rodeia. Assim, tenho vivido intensamente o “sentir” e o “refletir” sobre as novidades que têm me sido apresentadas, e que vêm resultando em inevitáveis processos de construção e desconstrução. Ah! Cláudia, querida, saiba que essa cigarra está cantando forte para sair da sua casca!

(sugiro que leiam esse texto escrito por minha irmã, o qual recebi de presente no dia de minha viagem: O canto da cigarra).

12 comentários:

gevis disse...

Até parece que voltámos a Berlim " vendo " como descreve a cidade e as fotos,magnificas ( a selecção está perfeita ) ,mostram tudo :uma grande cidade cheia de história,com vida,antiga e moderna ao mesmo tempo .
A pouco e pouco a Fla descobre as diferentes europas .Porque as há e bem diversas .Sobre os conflitos,que aflora,essa é uma outra estória,bem triste por sinal,mas não tão surpreendente,como à primeira vista possa parecer .Embora numa época em que tudo acontece tão rápidamente,há coisas que não mudam com a mesma velocidade .É perigoso forçar mudança de mentalidades,de costumes ancestrais,de fronteiras fisicas e mentais,como os acontecimentos dos últimos anos mostram ! O Homem parece que não aprende com os erros !
Mas agora está na Turquia .Um outro Mundo .Beijos e tudo a correr pelo melhor .

deaconti disse...

A cada postagem sua sinto mais e mais os efeitos da sua aventura: você está mais madura e centrada que quando saiu daqui. Essa viagem valerá por, pelo menos, 5 anos de cotidiano.

beijocas da mama

Alexandre disse...

Oi Maria Flávia,

Fazia tempo que não entrava no seu blog, acho que principalmente porque estou meio que mergulhado no trabalho e esse levantamento aqui em Portugal foi muito difícil e estressante. Estou tão cansado que conto as horas para o navio dar o último tiro, rumar para porto e eu pegar logo o vôo para o Brasil.

Então para aliar um pouco esse estresse, resolvi ver onde você estar, pois sempre tem umas fotos e comentários legais que você posta. As fotos não dá para ver porque a internet aqui no navio é lenta. Mas pelo menos li uma de suas crônicas.

Gostei muito da crônica sobre Berlim e especialmente da sua visão crítica do mundo contemporâneo. Tem uma frase no seu texto que eu assino embaixo: "...que realmente foi aprendido com esses fatos históricos, quando convivemos, impassíveis, com a construção de novos muros...", você cita como exemplo o muro entre árabes e judeus e eu gostaria de acrescentar um muro ainda mais próximo de nós Latino Americanos, aquele muro construído entre os EUA e México com quilômetros de chapas de aço, onde morreram muito mais pessoas do que nos 40 anos do Muro de Berlim. Muro este que exemplifica bem a face do Capitalismo e o que representa o Mundo Livre americano.

Já lhe falei isso antes, mas não custa repetir, você escreve muito bem. E ainda canta e toca ganzá!!!!

Sim, antes que eu esqueça, que mandou um beijo pra você foi o Leandro. Falei pra ele que você estava curtindo uma de mochileira pela Europa. Outra coisa, o Arlindo esteve no Rio e ficou na casa da Claudinha, conversei com ele e ele pediu remoção para João Pessoa. Sinceramente não sei o que vocês vêm nessa cidade (risos)!!!

Beijão,
Alexandre Magno.

P.S. - Ah, essa frase você tirou da Educação Ambiental, isso eu tenho certeza. Você ainda é uma Quiaba Ambiental:
"...e que vêm resultando em inevitáveis processos de construção e desconstrução..."

cigarra disse...

Ola Vitor, Gena, Mama, que bom encontrar vcs por aqui mais uma vez, e Ale, bem vindo a esse espaço!
Alê, boa lembrança quanto ao muro entre México e EUA! Na verdade, se entrarmos mais a fundo, tem vários outros grandes muros, talvez não materializado em tijolo ou metal, mas tão rígidos quanto.
Desde que iniciei os preparativos para essa viagem, uma coisa passou a me incomodar cada vez mais são as fronteiras. Essas também são grandes muros e que mantém, mais do que uma identidade, uma condição de desigualdade em áreas contíguas (claro que dentro desses "muros" também há diferentes concentrações, especialmente em paises como o nosso Brasil, mas esse é outro ponto bem complexo...). Sem falar na promoção de perigosos ufanismos que são combustíveis para batalhas entre seres humanos, e que, na verdade, são em essência tão similares entre si, acima de qualquer esteriótipo!
Me sinto extremamente privilegiada por ter sido permeável a todas elas, pois os filtros, especialmente nos paises ricos, podem ser muito seletivos (especialmente economicamente e etnicamente). Infelizmente, ser branca, loira e ter uma conta bancaria razoável estão nas entrelinhas do meu passaporte e permissões de entrada nos países. Ahhh, mas são tantos os não-bem-vindos porém que, ao mesmo tempo, produzem em suas miseráveis moradas, os bem-vindos produtos que chegam a baixos custos. Ou esses que recebem, compulsoriamente, os onus ambientais da produção pesada de produtos que bonificarão a vida desses que não os querem por perto. Uma lógica muito cruel!
Viajar pelo mundo me faz sentir cada vez mais cidadã desse planeta, apesar de carregar uma forte identidade tupiniquim! Sou em essência tão parecida com aquela com o óculos Dolce Gabbana nas galerias de Milão, como com aquela que usa um pano cobrindo sua cabeça nos bazares de Istambul. Temos muitos desejos, sentimentos e expectativas em comum. Afinal, somos todos animais da espécie Homo sapiens, apenas com adereços diversos que nos singularizam como indivíduos ou grupos.
O interessante é que, apesar das fronteiras dos Estados serem, em geral severas e pouco amigáveis, as portas das casas de muitos dos seus cidadãos são extremamente receptivas, o que me fizeram sentir em casa nos lugares mais longínquos!
Amo vcs, vamos nos comunicando,
Flavia - no ritmo de 5 anos em 1, ;)

Anônimo disse...

Flavinha, você está tão intelectual! Menina, que legal! Não vejo a hora de reencontra-la e conversar muito com você. Beijos e saudades.

lili

cigarra disse...

kkkk, intelectual? nada! sao reflexões normais que vem com a estrada. Quero estar mais para sentual- relacionado com sentir (acabei de inventar, hihihi.
pode seixar que vou a sua casa quando chegar, ainda mais para comer as massas do Jader.
beijao Fla

Cláudia disse...

Lindas, as fotos e mais ainda você. Honro sua coragem por encarar essa grande aventura.
E...Cantaremos juntas, então, pois as minhas cascas também estão caindo e Seremos Amor em comunhão.
Te amo.

Anônimo disse...

Nepal?!!!
Sinceramente? Achei que você não aguentaria esse lance sozinha até o fim. Apostei em torno de 4 meses para você voltar. Estou admirado e admirando-a cada vez mais. Parabéns, moça!

Ana Conti disse...

Oi fafa. Como sempre passo por aqui como se te visitasse em trânsito. E isto literalmente, pois estamos juntas na estrada. ´
e claro que sua estrada difere e muito da minha, pois eu apenas percorro o Estado de S. Paulo e a trabalho, mas ainda assim é uma estrada. É engraçado essa coisa dos muros que você sitou. Eu sinto que cada um, homem, mulher, adolescente, adulto ou velho, constrói o seu ao redor de si mesmo antes de pensar em construí-lo de tijolo, concreto ou metal. Esse é o grande problema. Passamos tempo demais brigando e tentando derrubar muros concretos e não percebemos que somente conseguiremos derrubá-los depois de destruirmos esses mais sutis. É bom perceber que algumas pessoas já tentam destruir esses muros particulares assim como você nesta viagem ou como a caca e o jorjão em suas buscas. Eu tento também mas não é uma tarefa fácil, pois assim que destruimos um sem perceber levantamos outro. Talvez seja a natureza do homo sapiens (espero que não).
Adorei suas fotos, mas como arquiteta (que apesar de não mais exercer ainda está na veia) achei falta das fotos da grande escola de arquitetura que tanto tivemos que estudar. hehehehehehe
Beijo grande minha linda e continue se cuidando.
Amo você.

Tia Lígia disse...

Olá, querida.
Há tempos estou com essa mensagem guardada na caixa de entrada - para não deixar de responder.
Este ano tem sido animal, em muitos aspectos. Há tempos eu não trabalhava tanto - trabalhar, em vários sentidos, não só no lê lê lê.. entende? Resolvi enfrentar o mestrado, não sei se já te contei. Entrei para trabalhar na universidade e, sendo funcionária, consegui uma bolsa - o mestrado é uma nota - eu não poderia pagá-lo, então não há como não aproveitar. Neste semestre fiz uma disciplina como aluna especial e montei meu projeto. O projeto foi aceito, passei na prova (de 62 entraram 37) e agora falta a entrevista, que será na terça feira (só há 22 vagas). Preciso reler meu projeto, preencher algumas lacunas e me preparar para enfrentar os professores. Talvez o fato de ser bolsista conspire contra mim - sendo que o curso é pago e os outros candidatos são pagantes, mas, se for bem, não haverá como se descartarem de mim.

Deixei, neste semestre, de costurar ou de pintar ou qualquer coisa do tipo. Acho que pela primeira vez em toda minha vida, tenho deixado de limpar a casa por até uma semana - só varro o meu quarto quando já não dá pra respirar (e olha que sou extremamente alérgica). Mas, tenho vivido legal. Os alunos pentelhos de alguma forma saem da minha vida - as energias não se batem e eles se vão. Tenho alunos legais, todos adultos - interessantes, interessados. Isso é bom e me alivia do estresse de ter de aguentar gente chata só pelo dinheiro que trazem por mês. Acredito que deva ter conquistado esse benefício na minha linha de darmas, ou "bons carmas", como se diz.

O serviço na Uniso, que é de revisora, é bom. Tenho lido grandes textos (muita bobagem também, mas tenho de reconhecer que não me purifiquei de todos os meus "maus carmas" rsrsrsr). A leitura de textos no trabalho e na investigação de meu projeto me têm levado a pensar muito, a refletir muito sobre a vida e todos os valores reais (o que considero que pode mudar de quando em quando). Tenho, portanto, viajado um caminho interior muito intenso (se é que intenso pode não ser muito... vê que tipo de coisas me ocorre?). Essa viagem é tenebrosa, às vezes, pois aqui e ali me esbarro em mim, em minha essência, em minha história - e às vezes me assusto. O pensar sobre quem sou na História, quem sou na minha própria história, no meu caminho - ao refletir sobre a razão das coisas e a simplicidade da vida (que a gente complica tão caprichosamente) - ao ter essas coisas em mente, me sinto estranha - um pouco feliz, um pouco triste - muito ansiosa e muito muito muito desejosa de viver - viver o bastante para chegar senão a conclusões, pelo menos a "considerações finais" - considerações que possam ser satisfatórias, entende?

A gente faz tanto e de repente faz tão pouco, a vida vai passando e a gente marca passo em esquinas sem importância - deixando, tantas vezes, de parar onde devia parar e olhar - observar e agir.

Hoje, é feriado - acordei cedo e resolvi que ia escrever e.mails para você, para meus dois amigos nos Estados Unidos - com quem não falo há muito tempo - e depois, costurar um pouco e até dar uma varrida na casa - já está no ponto de eu não poder respirar...

E aí, querida, sentei-me aqui, escrevi primeiro para meus amigos e deixei você pro fim. Não porque o fim é onde você está pra mim - pelo contrário - está bem no começo - há dias quero te escrever - mas, nem sei o que desejo escrever - queria, talvez, conversar - ouvir e falar - saber das suas experiências, das suas emoções - das suas lições.

Hoje, se eu pudesse, queria ir a Lisboa - queria visitar Portugal - a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional - queria ver os castelos, comer bacalhau, tirar fotos, assistir a uma apresentação de um fado, ir ao norte de Portugal, visitar casas velhas, falar com pessoas - sei lá - acho que pintou uma daquelas saudades não sei de que, que tantas vezes me assola (ainda bem que essa não surge do "olhar o céu" - esta sim é angustiante...).

Cacá esteve aqui há alguns dias. Veio para despedir-se - nos falamos pouco, ela foi dormir e não a vi sair. Ela me pareceu feliz com o poder estar com você, poder viajar - encontrar-se. Que barbaridade - como é que gente "se perde" tanto, não é? Tenho a impressão que nem todo mundo é assim - conheço um monte de gente que parece não se perder - por outro lado, há a hipótese de elas apenas estarem tão sem consciência de sua existência que nem notam a sua perda. Sei lá.

Tenho lido seu blog - só às vezes, confesso, porque tenho fugido dos e-mails e de sites não ligados ao meu estudo, como o diabo foge da cruz - a internet tem esse poder sobre mim - se me deixo dominar ela me domina - totalmente e, quando vejo (como agora mesmo, são 11:39 e estou aqui desde às 7:30 - só escrevendo e-mails e abrindo imagens) - quando vejo - o dia já era - por isso não tenho escrito muito, mas, como dizia, às vezes visito o seu blog e leio sobre sua viagem - é mesmo uma viagem fantástica - imagina como serão suas conversas com seus netos... Você será, com certeza, uma fonte de investigação para eles. Vai ser uma delícia - vai ver, rsrsrsrs.

Então, é isso aí, nada de novo pra falar, só as velhas questões existenciais. Não as mesmas de sempre - questões renovadas, graças a Deus, mas questões existenciais... Vou varrer a casa, costurar um pouco - há 3 meses nem ligo a máquina de costura e depois, se a Wendy concordar, vamos dar umas voltas de carro. Talvez vamos a algum lugar passear, sei lá se vai dar, mas vou planejar.

Este e-mail a que estou respondendo fala da ida à Ásia no dia 10 de novembro - eu hoje não sei onde você está, mas que esteja bem é o meu sincero desejo - sei que Cacá vai nos próximos dias - 22 parece, não? Será bom, talvez, seguir viagem com ela - eu gosto de viajar com companhia - especialmente se for alguém com quem partilho alguma coisa - vocês duas parecem estar num momento em que compartilham de algo muito legal - a vontade e a disposição de encontrar-se. Vai fundo! A viagem é mais longa do que uma volta ao mundo, não acredito que seja possível fazer essa viagem completa numa só existência - mas, um pouquinho em cada uma - e um dia - chegamos - ou não chegamos... Quem sabe se há afinal a necessidade de uma chegada.

Na Índia, dê um beijo em Ganesh por mim - diga-lhe que o adoro e que agradeço a ele por sua luz e por sua proteção. Diga-lhe que tenho por ele um carinho muito especial e peça a ele, por favor, que continue me abençoando. E a Krishna, diga-lhe, por favor, que eu o admiro e o tenho como a um amigo - daqueles "de verdade". Eu pediria para comer um curry - de verdade verdadeira - por mim, mas não sei se gosta e duvido que poderia sentir - daqui - o sabor de um, feito cuidadosamente por um hindu - especiaria por especiaria - sem "curry powder" - que é invenção ocidental - mas com rito, técnica e alegria. em todo caso, se gosta - lambuze-se - eu amo, de paixão.

É isso aí, meu amor, o relógio já marca as 12:17. Não posso considerar que "perdi" a manhã, porque fiz o que precisava fazer, mas a fila anda e já já é será noite.

Te amo muito, desculpe-me por me enrolar nas palavras, mas é assim que sou, ou tenho sido (nos últimos 52 anos, rsrsrsr), - enrolada.

Beijão no coração - divirta-se, cuide-se e viva muito intensamente.

Lígia

S disse...

Oi prima,

Passei só para deixar um beijinho e xi-coração (abraço) e desejar que esteja a correr tudo bem nesse lugar algures no Nepal. Fico a aguardar notícias cheia de curiosidade. Beijos, Sofia

deaconti disse...

Bem, filhota, a Cláudia, a essa altura, está quase em Delhi. Mais um pouco e estarão juntas. Que bom!

beijocas da mama