Este ano eu completo 30 invernos (não são primaveras, pois nasci em julho). Os que já passaram por essa fase sabem que ela vem recheada de mudanças, tanto físicas (já me chamam de Tia ou Senhora na rua!!!), como comportamentais, e com isso vêm os questionamentos.

Após a miscelânea de emoções vividas nos últimos anos, resolvi tirar um tempo para mim. Quero vivenciar situações imprevistas e redescobrir a Flávia, que por vezes vinha se escorando em personagens circunstanciais.

Obtive a aprovação do meu pedido de licença sem vencimentos do trabalho, por um período de um ano. Só faltava isso para começar o meu planejamento de transformar minhas economias em passagens, albergues, museus, paisagens, espiritualidade, comidas, encontros e desencontros.

Dois mil e oito para mim vai ser o ano da cigarra! – Isso não é horóscopo Chinês, Maia ou Checheno; é o resgate da Fábula de La Fontaine (mais conhecida como Fábula da cigarra e da formiga), mas com uma inversão de sua moral: sim, paremos para cantar e apreciar a primavera, e desfrutemos o ócio!!!!!

29 de agosto de 2009

Desapegos

Hoje acordei e fui à praia. O dia estava lindo e o sol, que andava meio escondido nas últimas manhãs chuvosas, reapareceu majestoso. A prática de yoga foi maravilhosa e profunda. Ao chegar em casa fui para o chuveiro e queria sentir a água escorrer na minha cabeça (sou muito mental e acumulo muita energia nessa região: uma boa ducha gelada na cuca ajuda a desopilar um pouquinho). Porém, a força da água não percolava até as raízes, já que meus soberbos cabelos não permitiam. Lisos, compridos, sedosos e dourados, esses belos fios também sustentavam lembranças desagradáveis, apegos e vaidades. Naquele instante eles pareciam pesar toneladas e, entoando o “Recado da Mãe Divina”, empunhei a minha tesoura e cumpri meu “sahasharakiri” (neologismo meu: um harakiri para libertar meu hara (chakra solar, o manipura, extremamente ligado a idéia de EU) e o meu sahashara (chakra coronário, da transcendência, da libertação). O retoque final foi feito no salão de beleza, pelas mãos de uma cabeleireira, inconformada com o fato, que já estava consumado!

Não há desculpas para se escorar já foi dito a hora é essa, o tempo é de se integrar, abraçando o que ainda resta... Estou morrendo para o passado nem anseio pelo futuro, minha coroa tem brilho dourado, provo o néctar do amor maduro” Fragmento do “Recado da Mãe Divina”, recebido por Chandra Lacombe







11 de agosto de 2009

Vriksha

Hoje, depois do habitual yoga matinal, passei um tempo pensando sobre a postura da árvore (Vrikshasana). Ela sempre mexeu muito comigo, pois sinto que me traz equilíbrio e centramento. Agora, que estou no mergulho de percepções mais sutís, me sinto ainda mais apaixonada por ela. Ao praticá-la, trabalhamos quase todos os centros energéticos, inclusive a nossa base. Contudo, a postura é transcendente e nos conecta com o alto, energizando principalmente, o Ajana chakra(sexto centro). Quando estou nela, após umas poucas respirações profundas já percebo esse poder sobre os meus corpos físico, emocional, mental e energético.

Mas, particularmente, o que hoje me sensibilizou foi a valiosa mensagem que percebi ao fazer uma variação desse asana: quando já estamos confortável e firme na postura, com as mãos elevadas em prece para o céu, descemos o tronco até as mãos tocarem o solo (mantendo a mesma base). Esse movimento é uma representação da figueira Banyan, considerada sagrada na Índia. Ela é uma frondosa árvore que com o tempo vai lançando dos seus galhos, raízes que buscam o solo. Quanto mais antigo o indivíduo, mais "troncos-raizes" ele terá, até chegar um ponto que fica difícil saber qual dessas bases é o tronco principal.

No hata yoga, estar em asana é estar firme e confortável na postura. Fiquei pensando que o avanço da postura da árvore pode ser considerado uma grande lição, pois ao descer devemos manter esses mesmos atributos: firmeza, conforto, equilíbrio, confiança e beleza. Esse movimento me fez refletir sobre a nossa postura em relação a impermanência das coisas, a dualidade da vida nessa nossa realidade mundana e a existência de ciclos como a roda de Samsara: uma hora estamos direcionados para o céu, outra hora para o chão. E quando o sentido é para baixo, podemos inicialmente achar essa fase ruim por estarmos contrários ao céu, por outro lado, podemos também ficar felizes pela oportunidade que nos leva a aproximarmos mais da terra, da nossa base.

No Banyan, com o processo de enraizamento, a árvore adquire mais sustentação e é fortalecida, pois com mais troncos-raízes ela será mais firme, melhor nutrida, diversificada e resistente. E conosco, não é o mesmo? Se encararmos todo processo de crise, como uma oportunidade para um crescimento, evolução e fortalecimento, poderemos também nos beneficiar desse, inevitável, movimento de subidas e descidas que é a vida e encarar todo esse jogo com mais leveza.
A natureza é mesmo uma poesia, o Guru em sua forma imanifesta! E o yoga é mesmo a sabedoria da união, a síntese! Fantástico!

Sugestão: pratiquem-na sempre e, ao fazer, tente lembrar dessa mensagem que o universo nos traz.
Namastê

22 de julho de 2009

Dai-me, Prem

Foi como estar em todos e em tudo,
um lampejo único e mudo que,
como uma onda que varre castelos de areia,
arrebatou essa gota que teimosamente resistia em correr para o mar.

Hoje, essa gota, ora fluida, ora frígida,
ora lente que foca, ora prisma que separa,
tem na lembrança de seu toque a sua inspiração mais pura.

23 de março de 2009

Meu retorno

Queridos,
dia 18 de março terminou minha peregrinação por esse mundão. Estou na casa do meu pai, em São Paulo, sentindo a intensidade desse retorno. É grande a felicidade de estar em terrinhas tupiniquins, mesmo com os desafios que essa volta me traz, pois sinto que alguns velhos hábitos, rotinas e conceitos parecem não mais fazer sentido para mim e há uma negação em regressar a eles. Apesar de sentir momentos de inquietações, tenho trabalhado relativamente bem a minha ansiedade, buscando me manter tranqüila, honesta e aberta ao que vem de novo.

Definitivamente me sinto muito diferente da Flávia que partiu em 2008, acredito que mais amadurecida, e que essa transformação ainda esta só no começo. Passei por uma viagem na qual pude desfrutar e aprender muito com o mundo exterior (paisagens, pessoas, culturas, etc.), mas também ter a oportunidade de iniciar o caminho do mundo interior. E foi ao longo da jornada que a maturidade foi sendo firmada e muitos conceitos sendo gradativamente ressignificados.

Antes de partir, estava imersa em sentimentos de frustração e projetei a minha felicidade na realização dessa viagem. Contudo, no momento da tão sonhada experiência, constantemente ansiava pelo momento futuro, o próximo destino, onde certamente estaria o melhor momento de êxtase. Também, ao sair do Brasil, pensava que a minha independência e liberdade eram simbolizadas pelo ato de colocar de uma mochila nas costas e sair para uma viagem solo ao desconhecido, às custas de recursos financeiros próprios. De certa forma, reconheço que foi uma conquista e que houve certo desprendimento e coragem na ação. Porém, admito que muitas vezes não soube estar realmente só e que, repetidamente, busquei preenchimento através do outro, debruçando minhas expectativas nas pessoas que encontrava no caminho ou que faziam contatos virtuais. Ah, foram tantas visitas a internet para fugir daquele conhecido vazio!

Tive que escalar o vulcão Etna, atravessar o deserto da Capadocia, trilhar os Himalaias e cruzar muitas fronteiras para perceber que, independente dessas serem grandes experiências, a maior delas tem sido explorar aquele espaço que estava ali, bem pertinho e sempre acessível, que é o mistério de mim mesma! Isso eu fui descobrindo ao longo da jornada, mas a percepção culminou na Índia, e devo muito ao Prem Baba, as pessoas do seu grupo e minha irmã Cláudia (La foi onde completei 9 meses de viagem, o que para mim simbolizou meu renascimento!). Mas também valorizo muito a viagem exterior pois foi ela que me expôs ao desconhecido e me possibilitou experimentar, com mais confiança e espontaneidade, novos espaços sociais e facetas do meu ser que, talvez por condicionamento e repressão, não teria feito nos conhecidos círculos no Brasil.

Hoje compreendo que a felicidade deve ser conquistada dentro, para assim ser emanada para fora. É uma valiosa mudança conceitual, pois está no sentido inverso do que eu antes acreditava. E ela só é conquistada quando podemos expressar o nosso EU interior mais genuíno e espontâneo, despido dos inúmeros filtros emprestados e dos pára-choques implantados. Cada pouquinho que me movo em direção a esse EU verdadeiro, experiencio mais paz, completude e amor. E quando, por graça, consigo acessar um lampejo desse puro amor, sinto que ele vem para ser compartilhado e entregue de forma incondicional. Tenho focado muito para sair da contra-mão, na qual sou movida pela infinita carência em receber. Descobri que, isso sim, é a verdadeira liberdade e independência.

E quando estamos nessa sintonia amorosa, podendo expressar nossa verdadeira essência, naturalmente sentimos uma alegria muito grande e um amor pela vida. E como a vida só existe no momento presente, o resto é ilusão, tenho procurado desfrutá-la até o osso, mesmo nas pequenas coisas. Ah, e como tem sido bom comer uma maçã, dançar uma música, admirar uma criança, acariciar uma pessoa, escutar um passarinho... !

Estou decidida a sair dos meus automatismos e do velho condicionamento de estar sempre na incessante busca de algo a ser conquistado no futuro ou atada aos de alegria e dor ocorridos no passado. Acho que, talvez, devido a esse intento interno é que tenho criado um pouco de resistência em atualizar os relatos de viagem no meu BLOG. Sempre fui tão apegada ao passado, que tenho que radicalizar um pouco para tentar me livrar desse padrão.

Tenho a noção que há muito para ser amadurecido e que ainda estou cheia de defeitos e padrões negativos. Há muito que se trabalhar para alcançar a coerência entre o discurso e a prática. Também não estou imune a quedas e regressões, mas ao menos tenho a certeza que conquistei uma parte desperta em mim que estará constantemente a me instigar a trilhar esse caminho do coração, seja em João Pessoa, São Paulo, Lisboa, Moscou, Rishkesh, Bankok, onde tiver que ser, e para então continuar cantando como cigarra, nos verões, primaveras, outonos ou nos invernos da vida!
Namastê!
Beijão,
Flávia (A Cigarra)