Este ano eu completo 30 invernos (não são primaveras, pois nasci em julho). Os que já passaram por essa fase sabem que ela vem recheada de mudanças, tanto físicas (já me chamam de Tia ou Senhora na rua!!!), como comportamentais, e com isso vêm os questionamentos.

Após a miscelânea de emoções vividas nos últimos anos, resolvi tirar um tempo para mim. Quero vivenciar situações imprevistas e redescobrir a Flávia, que por vezes vinha se escorando em personagens circunstanciais.

Obtive a aprovação do meu pedido de licença sem vencimentos do trabalho, por um período de um ano. Só faltava isso para começar o meu planejamento de transformar minhas economias em passagens, albergues, museus, paisagens, espiritualidade, comidas, encontros e desencontros.

Dois mil e oito para mim vai ser o ano da cigarra! – Isso não é horóscopo Chinês, Maia ou Checheno; é o resgate da Fábula de La Fontaine (mais conhecida como Fábula da cigarra e da formiga), mas com uma inversão de sua moral: sim, paremos para cantar e apreciar a primavera, e desfrutemos o ócio!!!!!

11 de outubro de 2008

Praga

Na saída da Rússia, eu tinha duas preocupações. Uma delas era o registro de estadia do Marco que estava irregular. Essa era mais uma burocracia russa, relativa à obrigatoriedade de se obter um registro em cada cidade em que se passa mais que 3 dias. Fizemos uma confusão em relação às regras e ele ficou sem esse documento. No entanto, ouvimos estórias que isso poderia trazer problemas na saída do país, com exemplos de pessoas que tiveram que pagar uma alta multa ou que ficaram presas na alfândega e acabaram perdendo o avião. Eu estava super tensa com isso, mas o Marco, principal interessado, era o mais tranquilo.

A segunda preocupação era a entrada na União Européia. Devido a acordos bilaterais com o Brasil, nós brasileiros podemos ficar até 3 meses como turista nos países do bloco, sem ter a necessidade de aplicar um visto. Eu saí da França pouco antes de vencer esse período e iria regressar para receber um novo carimbo de entrada. Só que as regras não são muito claras e não tinha certeza se iriam permitir a minha entrada. Ouvi relatos de gente que mora na Europa com visto de turista e sai periodicamente para Marrocos, Suíça ou outro país fora da UE para renovar a data de entrada. Mas também ouvi que teria que esperar 3 meses para ter novo carimbo. Pesquisei sobre o assunto e não havia encontrado informações esclarecedoras.

Passamos pelas fronteiras e não tivemos problemas, tanto na saída do Marco, quando nem perguntaram pelo papel de registros, como na minha entrada na República Checa, quando olharam meu passaporte com tanta displicência que até o carimbaram numa página fora de ordem e de ponta cabeça! Só tínhamos, então, que comemorar à chegada em Praga.

Logo no aeroporto já aconteceu um evento hilário. Havia um grupo muito grande de garotos em torno de uns 10 anos de idade, todos com um mesmo uniforme, fazendo um estardalhaço no saguão do aeroporto. Perguntamos a eles de onde vinham e o que faziam. Um deles respondeu que eram russos e faziam parte de uma equipe de hóquei. O Marco, que usava uma camisa do Araçatuba Futebol Club, bateu a mão no peito e disse: “Eu sou jogador de futebol do Brasil!”. Aquele menino prendeu a respiração e arregalou os olhos. Complementando a sua lenda, disse que ele era um dos mais famosos futebolistas do país e estava vindo para a Europa para jogar no Barcelona. Nessa hora o menino correu e, gritando, chamou o resto de sua equipe.

A molecada começou a rodear o Marco, se espremendo para tirar fotografias e pedir autógrafos. Nosso atleta pousou para algumas fotos e depois disse que estava bom. O mais engraçado de tudo isso é que todos no aeroporto começaram a observá-lo com grande curiosidade: “quem será ele?”. E teve até uma mulher, do tipo femme fatale, que passou encarando a suposta celebridade. Saímos do aeroporto às gargalhadas e toda vez que nos lembrávamos da cena, voltávamos a rir.

O bom astral continuou com o encontro de um novo amigo ainda no metrô, a caminho do albergue. Era um português que veio nos pedir informações e, por coincidência, iria para o mesmo endereço que nós. Seu nome era Helder, era da região do Porto e viajava só. A empatia foi imediata e, desde então, se juntou a nós até o último dia de suas férias.

Chegamos ao albergue, deixamos as malas e fomos explorar a cidade. Praga tinha um desafio muito difícil, que era superar as altas expectativas que nós três tínhamos em relação a ela – considerando sua fama de ser uma das mais belas cidades da Europa.

Fico feliz em dizer que ela não desapontou os seus severos críticos, e até mesmo superou suas expectativas. Primeiramente, porque a cidade é mesmo belíssima. Apesar de ter sido muito bombardeada durante a segunda guerra, a destruição de seu patrimônio histórico-arquitetônico foi menor do que muitas outras metrópoles daquele tempo, o que faz dela um museu ao céu aberto. Praga tem um centro histórico muito bem preservado, que reúne uma coleção de prédios de diferentes períodos, estilos arquitetônicos (barroco, gótico, renascentista, neoclássico, art nouveau...) e cores! Entretanto, se destacam as impressionantes, altas e pontiagudas torres góticas que despontam em diferentes pontos da cidade.

O segundo ponto forte é o lado cultural e artístico da cidade. Há tempos Praga tem sido um importante centro de cultura de sua região, tanto que abriga a universidade mais antiga da Europa Central e do Leste, fundada em 1348. Hoje, ao caminhar por suas ruas, se vê muitos teatros (incluindo de bonecos fantoches) e casas para concertos de música clássica ou jazz. A Ponte Charles é o ponto de concentração ao ar livre de artistas plásticos, artesãos e músicos de excelente qualidade, que estão presentes principalmente no verão, já que seu inverno é marcado por baixas temperaturas e neve.

Esse lado cultural tem um efeito sinergético com o terceiro e quarto pontos fortes da cidade: lá se vende por um preço bem barato a sua cerveja nacional Pilsner Urquell, que é uma das melhores da Europa, e a sua comida tradicional que é deliciosa. Consequentemente, o melhor que se tem para fazer em Praga é intercalar entre caminhadas por suas ruas e sentadas nas mesas de seus bares, restaurantes e clubes. Coincidência ou não, Praga se localiza numa região geográfica chamada Boêmia, que abrange o oeste do país. Será que essa sua essa sua aptidão para boemia é natural?

Por essas razões descritas acima, nos últimos anos Praga se tornou um dos destinos mais procurados da Europa. Aos poucos os preços têm aumentado com a chegada do turismo de massa, e a tendência é que nos próximos anos ela fique mais cara ainda, pois a República Checa está prestes a adotar o euro como sua moeda nacional. Então, sugiro àqueles que se interessaram, que corram para visitá-la!


Infelizmente as fotos do Marco com seus fãs foram perdidas, já que o cartão da máquina deu problema. Descobri, então, que o leitor de cartão que estava danificando os meus cartões. Que raiva!

7 comentários:

Ana disse...

Pois é, essas fotos perdidas do Marco valiam a pena ver mesmo. Posso até imaginar a cena. kiakiakia.
Adorei as estátuas partidas dos homens de Praga. Muito legal!
Super beijos bonitona!

gevis disse...

Texto e fotos,um conjunto esclarecedor,MUITO BEM .Esta " Peregrinação " pelo mundo,género Fernão Mendes Pinto,mas agora feita no século XXI por uma linda ( as fotos não enganam ) e inteligente brasileira,vai ficar um marco na sua vida e na dos familiares e amigos .Ficamos a aguardar as próximas crónicas .Beijos

Bia disse...

Flavita! Continuo acompanhando sua viagem, mesmo quando não escrevo. Uau! e que viagem! Estou adorando suas crônicas e fico esperando por elas com ansiedade. As fotos estão bárbaras e as histórias de arrasar. Muito bem, menina! Beijos e muitas saudades.

mitidierousp disse...

Flavia, confesso que fiquei emocionado quando chegamos na praça central em Praga, mas segurei a onde e não falei nada. Certamente uma das cidades mais belas do Planeta.
Putz, eu tinha esquecido das fotos do aeroporto KKKK Foi demais aqueles 40 moleques atras da gente e o povo olhando pra mim KKKKK !5 minutos de fama que já se foram.
Tu esqueceu de falar daquela cerveja preta...que procuramos no outro dia e não achamos...foi a melhor da viagem!!!
beijão

Anônimo disse...

Querida Cigarra
Muita Paz!

Enriquecedora,este é o termo mais apropriado para definir essa viagem
que realiza em busca de SI MESMA.
Bióloga,pesquisadora,aventureira,intuitiva e mulher são atributos que lhe adornam a personalidade e contribeum para que possa compreender melhor o mundo que a cerca,vivenciando experiências ímpares que certamente auxiliarão no seu processo de DESPERTAR.
Em breve estará na Índia, juntamente com a ¨Cacá¨,aproveite a oportunidade, na terra dos Mahatmas, para mergulhar no seu Universo Interno e redescobrir quem é,e qual o seu papel na sinfonia cósmica.
Seguem os meus sinceros votos de harmonia e paz.

O Peregrino (Jorjão)

Cláudia disse...

Si si, Jorjão!!! Encontraremos lá não só uma a outra, mas a nós mesmas. Um pouco mais de nossos corações nos serão velados, para assim ser transbordante ao mundo. Jallalla. Flá, tá chegandooooooooo...

cigarra disse...

ai ai que gostoso encontrar vc Jorjao por aqui. Mas que suuuuuudades!
Vai ser muito bom, sei que essa parte no oriente te interessa especialmente. Fique tranquilo que viveremos de forma intensa, mandaremos notcias e trocaremos conhecimentos quando voltarmos.
bejos Fafa