Este ano eu completo 30 invernos (não são primaveras, pois nasci em julho). Os que já passaram por essa fase sabem que ela vem recheada de mudanças, tanto físicas (já me chamam de Tia ou Senhora na rua!!!), como comportamentais, e com isso vêm os questionamentos.

Após a miscelânea de emoções vividas nos últimos anos, resolvi tirar um tempo para mim. Quero vivenciar situações imprevistas e redescobrir a Flávia, que por vezes vinha se escorando em personagens circunstanciais.

Obtive a aprovação do meu pedido de licença sem vencimentos do trabalho, por um período de um ano. Só faltava isso para começar o meu planejamento de transformar minhas economias em passagens, albergues, museus, paisagens, espiritualidade, comidas, encontros e desencontros.

Dois mil e oito para mim vai ser o ano da cigarra! – Isso não é horóscopo Chinês, Maia ou Checheno; é o resgate da Fábula de La Fontaine (mais conhecida como Fábula da cigarra e da formiga), mas com uma inversão de sua moral: sim, paremos para cantar e apreciar a primavera, e desfrutemos o ócio!!!!!

22 de agosto de 2008

Amsterdam

A bordo de um trem rápido francês segui de Paris para meu próximo destino: a capital da Holanda. Foram apenas 4 horas de viagem até a estação ferroviária de Amsterdam, que está localizada no centro da cidade e a apenas 10 minutos do albergue onde fiquei hospedada.

Logo ao desembarcar, busquei informações sobre minha localização e percebi que a comunicação na cidade seria tranquila, pois quase todos falam um inglês fluente; por outro lado, tive um pouco de dificuldade na navegação com o mapa recebido, em consequência da minha falta de intimidade com o holandês (ou dutch). Os nomes das ruas me pareciam enormes agrupamentos de muitas consoantes e poucas vogais, impronunciáveis e por isso facilmente esquecidos, o que me obrigava a consultar o mapa seguidamente.

Chegando ao endereço indicado, fui recepcionada pela névoa produzida pelos cigarros de maconha de jovens turistas, estirados nos sofás, daquela que seria a sala de entrada da minha temporária morada. Em contraste, emolduravam essa cena cartazes informando a proibição de fumar naquele espaço e ameaçando os infratores com pesadas multas. Porém, essa era uma restrição legal relativa ao uso de tabaco em ambientes fechados, o que tem sido uma tendência geral em toda a Europa. Como a Holanda até o momento não estendeu a restrição a outros tipos de fumo, esses cigarrinhos estavam permitidos.

As primeiras horas de caminhada pela cidade já foram suficientes para despertar encantos em mim. Amsterdam é belíssima! A cidade é entrecortada por diversos canais e, na região central, esses cursos d'água são acompanhados pelas famosas casas de mercadores, do século XVII e XVIII, todas de tijolos e pintadas de cores escuras. É interessante que, por terem sido construídos em terreno pantanoso, vários desses prédios estão desaprumados, característica que atrai a curiosidade dos turistas, mas que da muita dor de cabeça e gastos aos proprietários e orgão responsável pelo patrimônio histórico. As construções mais modernas, representantes de estilos arquitetônicos do século XX, são encontradas, principalmente, nas adjacências do centro histórico.

Além de mim, muitos outros visitantes aparentemente também encontravam-se extasiados com a cidade. Milhões de turistas chegam anualmente a Amsterdam atraídos pelos históricos canais e diversos museus (Rijks, Van Gogh, Stedelijk, Rembrandthuis, Casa de Anne Frank e outros), mas alguns são motivados pela existência de estabelecimentos voltados à comunidade gay e ao comércio do sexo e de substâncias psicoativas. Ou seja, esses estão mais a fim de sexo, drogas e/ou Pet Shop Boys!

A Holanda é bem conhecida por suas posições mais liberais em relação a questões consideradas polêmicas, como eutanásia, uso de entorpecentes e direitos dos homossexuais e profissionais do sexo. As aberturas legais relativas à prostituição e uso drogas possibilitaram uma larga exploracão pela indústria do turismo, que hoje se beneficia da venda de sexo e drogas enlatados. Chega a ser engraçado a mercantilização da possibilidade de ficar doidão ou de ter uma boa gozada. Há um comércio tão cômico, quanto banal, em torno dessas mercadorias, havendo dezenas de sex-shops e smart-shops (ponto de vendas de larga gama de psicotrópicos e acessórios associados) com hilárias vitrines que expõem uma infinidade de produtos, para todos os gostos e usos. Além disso, há também museus específicos para a historia do sexo e da Cannabis.

No caso da maconha, ela é considerada ilegal na Holanda, mas tolerada. Essa regulamentação se inicia nos nos anos 70, com a distinção entre drogas consideradas leves (como a cogumelos alucinógenos, maconha e haxixe) e drogas pesadas (como heroína e cocaína), e a definição de políticas especificas na área de saúde pública e controle para cada um desses grupos de entorpecentes. Essa foi uma estratégia para focar ações de combate ao mercado e consumo das drogas que geravam alto grau de dependência química e que eram utilizadas por um número elevado de habitantes. Essas política parece ter sido bem sucedida, pois afirmam que a quantidade de viciados em heroína caiu e que a tolerância ao uso da maconha não levou a um consumo maior do que ao comparado com outros países.

Hoje na Holanda tolera-se a posse de uma quantidade de maconha/haxixe que é considerada de uso pessoal: 5 gramas de fumo/resina ou o cultivo de até 5 plantas por pessoa e em ambiente externo - outdoor. A plantação para fins comerciais ainda é ilegal e configura o atual gargalo desse sistema regulatório. Apesar dos coffe-shops (pontos de venda de maconha e haxixe, e não propriamente de café) terem autorização para a venda desses produtos, eles não têm meio legal de obter seus suplementos. Assim, são todos provenientes do mercado negro e a polícia fecha os olhos para essa situação, afinal, são muitos empregos e turistas beneficiados com esse mercado. Hoje existem na Holanda cerca de 2000 coffe-shops, sendo uns 300 só em Amsterdam. Parte do congresso holandês quer regulamentar o cultivo legal de Cannabis sp., mas há fortes pressões contrárias, tanto internas, como da União Européia, principalmente dos países vizinhos.

Bom, como viajante curiosa e aberta a experiências, admito que no terceiro dia visitei um coffe-shop e provei uma erva. Segundo o cardápio era a mais leve da casa (California Orange Bud), mas ela era tão forte que fiquei como os prédios ao redor, totalmente fora de prumo. Assim, essa foi minha primeira e única experiência satívica em Amsterdam, já que tive que optar entre as delícias psicodélicas, e as de pedalar pelas ruas e parques da cidade, pois ambas eram incompatíveis. Escolhi a bicicleta e a segurança, tanto minha quando a dos pedestres em meu caminho. Valeu a pena, pois nada mais delicioso que pedalar em Amsterdam: incrível sensação de liberdade!

Quanto aos produtos sexuais, não provei nenhum. Talvez seja caretice minha, mas ainda acredito em relações sexuais com algum grau de intimidade e afeto, e também não tenho grandes taras por acessórios de sex-shops. De qualquer forma, visitei o famoso distrito da luz vermelha (red-light district), onde há prostitutas na vitrine e diversos sex-shops e casas de strip, e achei bem interessante. A coisa lá é bem profissional, o que é bom para as prostitutas (não vi homens com essa profisão), mas ouvi queixas de clientes quanto ao sexo burocrático oferecido. Por outro lado, elas têm sua profissão regulamentada, com garantias de direitos trabalhistas, e maior segurança no ambiente trabalho. Quem quiser, tem que seguir os termos estabelecidos por elas! (Obs.: gostaria de ter tirado mais fotos do red-light district, mas não é permitido fotografar as prostitutas. Saquei uma foto na surdina, uma delas percebeu e acabei recebendo muitos xingamentos. Tive que sair correndo, pois ela já estava saindo de sua cabine em minha direção! Reconheço que ela estava certa, mas que fotógrafo amador resistiria a tal cenário antropológico?)
Durante minha visita tive a sorte de vivenciar a semana do orgulho gay de Amsterdam, que tem grande importância para a comunidade homossexual, além de ser muito simbólica, devido ao país ser vanguarda na regulamentação de seus direitos. A parada gay foi bem divertida, mas não posso mentir que ainda bem tímida, se comparada com de São Paulo, e até a de João Pessoa, que são muito mais extravagantes e cheias de plumas e purpurinas!

Dentre os museus da cidade, fui apenas ao do Van Gogh. O ambiente é agradável e a organização da exposição é muito boa, trazendo as obras em sequência cronológica, o que nos permite perceber as tranformações no estilo e técnica do artista. Além disso, há obras de outros pintores, como Camille Pissarro, Claude Monet e Paul Gauguin, que estão lá por terem influenciado a arte de Van Gogh. O legal foi ter visto vários quadros retratando Monmartre do final do sec. XIX, local onde van Gogh morou em Paris, e que visitei dias antes de chegar em Amsterdam. Parece ter havido mudanças, já que esse bairro ainda apresentava paisagens rurais e era um reduto econômico de boêmios, intelectuais e artistas. Hoje, ainda é charmoso, mas com bares voltados a turistas mais abonados, pois seus preços são tão elevados que dá constrangimento ate de olhar o cardápio!

Outro ponto forte da minha visita foram as pessoas que conheci. Fiquei em um albergue que era muito sujo e desorganizado (anotem o nome: Boby’s Hostel), mas lá conheci várias pessoas legais, especialmente Camilo, Marie, Paulo, Tathi, Sonia, Lilian e Renato. Desfrutei ótimos momentos com cada um deles, sempre aprendendo algo novo. Por fim, concluo que foram 4 dias muito bem aproveitados. Seguramente, posso dizer que Amsterdam está entre as cidades mais legais que visitei ate agora. Adorei e recomendo!


7 comentários:

deaconti disse...

Filhota,
Mesmo tendo o privilégio do acesso antes que os outros a suas aventuras, não consigo deixar de me emocionar cada vez que vejo publicada aqui mais uma postagem das suas andanças. Continuo juntinho de você, ok?

te amo
bjs

Raquel disse...

Flá, imagino o quanto esteja curtindo... Amsterdã com certeza estaria na minha lista de destinos a conhecer na Europa, principalmente por essa facilidade de dar os giros de bike, acho o máximo!!
Curta por mim!! Bjs.

gevis disse...

Uma descrição muito bem conseguida das vivencias em Amsterdam .A Holanda no seio da UE " é um caso " .Nalgumas coisas muito avançada,noutras nem tanto .Mas a ninguém é indiferente . S regressou hoje a Bruxelas e no inicio do próximo mês vai para Sevilha ,onde possívelmente iremos passar uns dias .

Cláudia disse...

Deu para sentir as boas vibrações daqui. As fotos e o relato transparecem uma deliciosa abertura para tudo que é diferente, exótico, bizarro, exuberante e lindo. Essa abertura é que traz aquela divina sensação de liberdade e alegria. Obrigada por nos trazer isso.
Te amo. Saudades.

Maria Teresa disse...

HAHAHAHAH!!! que fotos! adorei o barco do palmeiras na parada e o prédio mais estreito do mundo.
que sorte ter chegado lá na hora da aparada, hein?
e vc foi a única até hj que disse que preferiu as bicicletas... hahahah... quer dizer, tb eu prefiro as bikes mas... ah! deixa pra lá...
ótimo pico. curti demais. um dia vou lá.

Leo disse...

Como a Maria Teresa, também achei uma grande novidade sua opção pela saúde, em Amsterdam (bem entendido: novidade não em relação à SUA escolha, mas às escolhas em geral). Mas essa é a Flavinha que a gente conhece, por isso mesmo seus avós poderão ler sem receio ou susto esse interessante episódio ocorrido no "café" da cidade mais free do mundo.

Sempre em frente, Flávia!

kisses

Anônimo disse...

Essas fotos de Amsterdan parece jogo do São Paulo X Corintians; só tem viado e maconheiro. AHAHAHAH. Betão