Este ano eu completo 30 invernos (não são primaveras, pois nasci em julho). Os que já passaram por essa fase sabem que ela vem recheada de mudanças, tanto físicas (já me chamam de Tia ou Senhora na rua!!!), como comportamentais, e com isso vêm os questionamentos.

Após a miscelânea de emoções vividas nos últimos anos, resolvi tirar um tempo para mim. Quero vivenciar situações imprevistas e redescobrir a Flávia, que por vezes vinha se escorando em personagens circunstanciais.

Obtive a aprovação do meu pedido de licença sem vencimentos do trabalho, por um período de um ano. Só faltava isso para começar o meu planejamento de transformar minhas economias em passagens, albergues, museus, paisagens, espiritualidade, comidas, encontros e desencontros.

Dois mil e oito para mim vai ser o ano da cigarra! – Isso não é horóscopo Chinês, Maia ou Checheno; é o resgate da Fábula de La Fontaine (mais conhecida como Fábula da cigarra e da formiga), mas com uma inversão de sua moral: sim, paremos para cantar e apreciar a primavera, e desfrutemos o ócio!!!!!

27 de julho de 2008

Experiências

Um grande aprendizado proporcionado por essa viagem tem sido o desenvolvimento da arte de lidar com os próprios medos, principalmente aqueles relacionados ao fato de estar só e de ser inteiramente responsável por si mesma. Claro que se pressupõe que todo indivíduo deva ter livre arbítrio, mas quando estamos em uma zona conhecida e rotineira, geralmente as respostas são processadas automaticamente ou costumamos partilhar e até delegar a responsabilidade de nossas escolhas com/para outras pessoas. Quando se está viajando, ainda mais sozinhos, somos constantemente confrontados com situações novas e desafiados a fazer escolhas imediatas, nem sempre previsíveis, inteiramente por nossa conta e risco.

Fazendo uma auto-análise, me declaro feliz com o meu desempenho até o momento. Percebo que, cada vez menos, experimento o sentimento de medo. Para mim, foi muito simbólico um dia em Albegas de Luna, em que estava saturada de contato com outras pessoas e me retirei para uma caminhada nas montanhas. Segui uma trilha atentamente (afinal, tinha a responsabilidade de reconhecer o caminho de volta) e estive um dia inteiro explorando a paisagem, distante do acampamento e sem contato algum com pessoas. Para alguns, isso pode não ser um grande feito; já outros podem estar pensando que, para uma bióloga de campo, eu já deveria estar totalmente acostumada a isso; quanto aos meus pais, esses devem estar achando que sou uma maluca irresponsável! Bom, o fato é que já havia feito outras saídas parecidas, mas sempre carregando uma dose de medo: medo de tropeçar e torcer o pé, de ser picada por uma cobra, de me deparar com uma onça ou um caçador, de uma queda de uma árvore na minha cabeça, de sofrer um piripaque, de ser atacada por um enxame de abelhas assassinas... Também há aqueles medos sentidos, porém não decifrados, e que só sessões de análise explicariam. Mas nesse dia estava totalmente em paz e percebi que isso tem sido uma constante nessa jornada. Ainda sei da necessidade de ser cautelosa e não me arriscar desnecessariamente, mas acredito que as escolhas devam ser, ao mesmo tempo, racionais e intuitivas, e não guiadas pelo medo. Estar cada vez menos em contato com ele me faz mais livre e independente.

Apesar de tudo que foi dito acima, constatei que semanas atrás fui tomada pelo medo. Quando estava na Catalunha, já na borda com o território francês, me peguei usando de subterfúgios para me manter na zona do conhecido e confortável. Naquele momento, era invadida por idéias relacionadas à minha permanência na Espanha, como de seguir para a corrida de touros de São Firmino, em Pamplona ou para um festival de música celta, na Galícia. Tenho certeza que seriam ótimos programas, mas o problema estava na motivação disfarçada que, em essência, era o medo de cruzar a fronteira.

Lembrei-me que ao sair de Portugal também senti algo parecido, já que estava no conforto da fluência no idioma e do carinho da minha avó. Mas na Espanha aprendi a me comunicar muito bem, apesar do castelhano a lá Wanderley Luxemburgo. Entretanto, nesse segundo momento, o fato de não saber nada de francês parecia assustador para mim! Ainda mais por que sempre ouvi falar que na França há uma grande resistência à língua inglesa.

Consciente de minhas limitações, mentalizei o desafio, enchi os pulmões de coragem e embarquei para Perpignan, levando na bagagem uma reduzida coleção de expressões: oui, non, bonjour, bonsoir, s'il vous plaît, merci, Il n'y a pas de quoi, excusez-moi e, principalmente, je ne parle pas français! Como previsto, o primeiro dia foi um pouco difícil e fiquei rodando horas na cidade seguindo as confusas e truncadas informações recebidas.

Mas depois do primeiro impacto, já estou confiante e confortável nesse novo país. Após duas semanas na França, minhas primeiras impressões sobre os locais visitados sugerem que, das generalizações ditas sobre o país, algumas parecem ser procedentes e outras não. Realmente são poucos os franceses que falam inglês. Porém a estória de que as pessoas se recusam a usar o idioma é uma lenda. O fato é que elas realmente não têm o conhecimento da língua. Pode ser até que a resistência exista para o aprendizado, mas ela, definitivamente, não está no momento da comunicação. Os franceses me pareceram extremamente amáveis e se esforçam muito para conseguir se comunicar com o estrangeiro (em geral, são até bem mais educados que muitos espanhóis, que costumam ser mais diretos e ríspidos no tratamento). Ainda há também uma boa surpresa: algumas pessoas sabem o castelhano, principalmente no sul e oeste da França, facilitando o diálogo.

Com um vocabulário ligeiramente ampliado e lançando mão de palavras em inglês, espanhol e português, além de mímicas, tenho conseguido me comunicar e aproveitar essa terra. Porém, tive que readaptar meus hábitos. O tempo aqui é diferente e tenho que programar minhas saídas com antecedência, em decorrência dos percalços linguísticos e do ritmo de suas cidades interioranas.

O vazio das ruas nas noites francesas contrasta-se com as intermináveis madrugadas espanholas. Na Espanha os bares e restaurantes estão cheios depois das 22:00 horas e alguns comércios funcionam até a noite. No interior da França, exceto nos quarteirões mais turísticos, os bares e até alguns restaurantes fecham às 20:00 horas, apesar do sol ainda brilhar no período do verão. Também não há comércio aberto depois dessa hora, mesmo supermercados. Antes de compreender essa dinâmica, cheguei duas vezes a ter que me arriscar faminta pela noite, até ter a sorte de encontrar um santo kebab aberto na rua.

O horário de funcionamento dos transportes públicos também é algo que deve ser observado atentamente, pois é possível que, durante a noite, tenha que retornar ao albergue caminhando, já que o último ônibus da linha pode passar, exatamente, às 21:03 horas no ponto. Aliás, os albergues devem sempre ser reservados com antecedência, considerando que não são muitos e podem estar cheios, sobrando como opção apenas os hotéis, que são caros para um padrão mochileiro. Assim, por tudo isso, não tenho improvisado muito no interior da França, pois há grandes chances de que o que estou procurando "já ter se acabado"!

Declaro-me muito feliz por ter superado minhas limitações e ter chegado até aqui. A França é linda e tudo aqui me parece romântico e bucólico, além de terem uma mentalidade de desenvolvimento sustentável bem avançada! As diferenças sentidas podem ter sido, umas mais, outras menos agradáveis, mas tem sido um grande aprendizado saber administrá-las de forma tranquila e harmônica. Creio que esses desafios contribuem para a fluidez da personalidade de qualquer pessoa.

Assim, superado mais um medo, fico pensando: como me sentirei quando estiver prestes a embarcar para a Rússia, que tem não só a língua, mas um alfabeto desconhecido para mim? E para a Ásia, onde as diferenças não serão apenas linguísticas, mas também culturais?... Possivelmente, estarei apavorada, mas espero também estar suficientemente instigada e inspirada para seguir em frente. Em todo caso, para minimizar qualquer ansiedade, tenho tentado percorrer os meandros de cada dia com calma, deixando cada desafio para sua devida hora, sem antecipá-los. Difícil? Sim, mas um processo constante de aprendizagem!

PS. Devido à falta de regularidade nos meus posts, há dois lapsos nesse blog: minha visita à Madrid e à região da Catalunya. Os relatos sobre elas estão ausentes, mas tentarei fazer, em breve, um resumo, para que não passem desapercebidas.

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Na França estive em mais um Rainbow, esse menor que o espanhol, mas também muito bom. Conheci muita gente e soltei meu lado criativo, principalmente relacionado à música (isso é fantástico, pois sempre fui tão racional que o lado direito do meu cérebro já devia estar um pouco atrofiado!). Incrivelmente, minhas descordenadas mãos me obedeceram para o toque das maracas e outros cocalhos, e as improvisações no canto fluiram de uma forma nunca esperada. Não sei explicar, mas nos encontros arco-íris "there's a natural mystic blowing through the air...".




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Estive em um Festival de música aborígene na cidade de Airvault, onde havia atrações da Austrália, China, Nepal, Mongólia, África do Sul, Bolívia, Guadalupe e outros. Além de grupos de cultura tradicional, havia também muitos concertos que mesclavam didgeridoo, harpas de boca e sons guturais (throat songs). Estavam presentes ao evento mais ou menos 3000 pessoas, um público bem alternativo, todos acampados na área do festival. Ótimo evento, ótimas vibrações!



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Também visitei a cidade de Montpellier (sul da França), Poitier (a caminho do festival) e alguns castelos no Vale do Loire, tendo como base a cidade de Tours. Vi lindas paisagens e monumentos, e alguns deles estão nessas fotos.



12 comentários:

gevis disse...

"Os medos" relatados, são o que de mais normal acontece "nessas andanças",acontece a todos e só a experiencia,o decorrer dos dias, os vão dissipando,até certo ponto .Quanto à lingua,desde que se fale pelo menos uma ,para além da própria,não se preocupe com isso ;não vai ter problema algum .Vai até descobrir que o português se fala nos sitíos mais incríveis !"Mente aberta",tranquilidade,cuidados habituais e normais de segurança e tudo continuará bem .Não dispensamos suas belas fotos ( o Gil é um excelente "cicerone" ) .Beijinhos

deaconti disse...

As fotos estão bárbaras, Fafá! Mas como sei que você está em Paris, mal postou o "Experiências" e já estou querendo mais... Louca para ouvir um pouco sobre suas andanças por Paris (você sabe que ela é a minha cidade predileta). Já entrou em alguma Gibert Jeune (uma super livraria)? Adoro aquela que está no Quartier Latin... Cheia de ofertas e novidades fantásticas.

beijocas

Ana Conti disse...

Se pararmos para pensar, nem mesmo saímos de nossa cama, em nossa casa, em nossa terra. A vida é cheia de medos que devem ser domados e superados sempre, a todo instante e é isto que faz da vida algo tão sensacional. O melhor para que fique fácil domar os medos é exatamente o planejamento.
Então, me parece que você está no caminho certinho.
Super beijos

Raquel disse...

Vale do loire, chegou a ser tema de um trb durante meu curso de francês... Se entrei em êxtase simplesmente ao ler sobre o lugar, conhece-lo certamente foi uma VIAGEM!!!!! Enjoy....

Raquel disse...

Ah, devo registrar que adorei que o mapinha tenha voltado à cena!!! Só não sabia que a hora de Paris havia chegado... Fale mais disso!
:)
Bjs, amiga. Com muita saudade!!

gevis disse...

O Blog está a ficar muito bonito,muito completo,quer a parte escrita,quer a fotográfica .Parabens.Boas descobertas.

Cláudia disse...

O medo inexplicável... Todos os são. Só inventamos causas para alguns e não temos criatividade para inventar as de outros. A base deles é o NOVO, e sempre será. A nossa mente percorre caminhos sempre conhecidos para sentir-se confortável. Quando, por um ato dependente de força de vontade arbitrária nossa, damos o salto, o medo é o grito da mente que acha que vai cair, pois conhece pouco o vôo livre. Mas depois que voa... ah... lá em cima é bom demais. É só continuar tendo pensamentos felizes, segundo Peter Pan, que estaremos no alto. Cuide deles, dos pensamentos.

Andrei L Roos disse...

Flavia
Cade os pajaritos? esquecesse da ornitologia? poste algumas fotos de observacoes, hehehe!
Ah e nao esqueca de colocar as datas em que passa por cada cidade, assim podemos te rastrear melhor!!
Abracos e Beijos
Andrei e Sil

Anônimo disse...

oi linda! suas impressões de viagem me impressionam!
Estou contigo! Coragems, sem medo! esse mundo é enorme...
saudades querida! coragem em todo o percurso. te amo!
alice

Jorge disse...

Flavinha, estou amando esse seu blog: ele está cada mais interessante e com ótimo visual. E as impressões sobre a sua incrível aventura... me deixam com água na boca, além de me dar a sensação de estar a passar pelas mesmas situações. Escreve mais, menina, escreve muito que você leva jeito!

beijos e saudades

Anônimo disse...

Flávia,
mantenha-se firme neste caminho! Nas sextas, no nosso butequinho tradicional, tenho brindado silenciosamente a sua jornada e fico imaginando quantos causos e prosas virão na sua mochila. Mica também te manda um forte abraço.
Te aguardamos...
Orione

Anônimo disse...

Linda, você está cada vez mais linda, inteligente e desejável! Sou seu fã. Mais que isso, mas...

Vai, segue em frente sempre assim: ousada, brava mulher! Te desejo muito sucesso e paz.

P.